Luiz Depine de Castro

‘Não importa a cor do gato, contanto que ele cace o rato’

‘Não importa a cor do gato, contanto que ele cace o rato’

Deng Xiao Ping, anos 1970

 

Não existe ideologia quando se trata de tecnologia. Esse foi o sentido da frase pronunciada pelo dirigente chinês Deng Xiao Ping, no final dos anos 70, em plena miséria e fome herdada do regime de Mao Tse Tung.

Deng Xiao Ping foi exilado três vezes. Nas duas últimas, Mao Tse Tung o fez com medo de que sua figura e inteligência lhe fizessem sombra. Após a morte de Mao, foi chamado do exílio para o centro do poder por Hua Guo Feng, substituto muito fraco e escolhido por Mao no leito de morte para evitar que sua memória fosse denegrida. Hua Guo Feng, sem conseguir imaginar saídas para a China, ofereceu a Deng Xiao Ping os poderes que ele julgasse necessários para retirar o país daquela situação lastimável. Deng, em vez de pedir a liderança suprema da China, como Hua Guo Feng temia que ele fizesse, escolheu o controle da áreas de TECNOLOGIA e da EDUCAÇÃO, somente. Segundo ele, elas seriam suficientes para mudar o país.

Iniciou-se nesse momento a busca mais desesperada que se tem notícia, nos tempos modernos, por tecnologia. O primeiro país ao qual Deng Xiao Ping recorreu foi o Japão. No início dos anos 80, o Japão estava no auge do seu desenvolvimento tecnológico e geograficamente muito próximo da China. Obviamente isso provocou enormes protestos internos, principalmente por parte dos opositores comunistas ainda no governo, tendo em vista o desastre causado pela invasão japonesa ao país, durante a Segunda Guerra Mundial, inclusive com a conhecida prostituição das mulheres chinesas pelos soldados invasores.

Foi nesse momento, e nesse contexto, que Deng Xiao Ping pronunciou a frase que ele tornou famosa: “Não importa a cor do gato, contanto que ele cace o rato”. Em outras palavras, não importa o que fez o Japão nem os soldados japoneses contanto que eles nos ajudem a sair dessa situação em que a China se encontra, ou ainda, não existe ideologia quando se trata de tecnologia. Foi nesse contexto que a China se apoiou no Japão e no seu arqui-inimigo os Estados Unidos para iniciar o seu desenvolvimento tecnológico.

Quando Deng Xiao Ping assumiu integralmente a liderança da China, em 1979, a produção do país era 100% de produtos primários. Os gráficos abaixo mostram que em 1990, ou seja, somente onze anos depois, a produção chinesa já era de 26% de produtos primários, somente, contra 13% de produtos de tecnologia intensiva. Em 2009, ou seja somente trinta anos após Deng Xiao Ping ter direcionado a China para a busca do seu desenvolvimento tecnológico, a produção chinesa de produtos primários era de somente 5% contra 50% de produtos com tecnologia intensiva. Com esses dados, é possível entender porque a China se tornou a segunda economia do mundo, saindo de uma situação miserável, em apenas 30 anos.

E o Brasil?

Em 2009 continuava a produzir 57% de produtos primários contra 16% de produtos de tecnologia intensiva. Em jargão popular, o Brasil tomou um “capote” da China sem nunca ter conhecido seus  níveis econômicos e sociais catastróficos das décadas de 60-70.

The rise of the BRIC and its impact on the Dutch economy. Stefan P.T. Groot, Henri L. F. de Groot, Arjan M. Lejour and Jan Mohlmann. On the request of Economic Affairs, Agriculture and Inovation. 21 Novembro 2011

Obviamente, a renda per capita da China, que em 1980 era desprezível em comparação com a brasileira, ultrapassou esta última em 2015 e, mantidas as condições atuais, deverá ser o dobro da brasileira nos próximos 5 anos.

Com as dimensões continentais que possui, o Brasil, assim como a China, não pode continuar a ser um exportador de commodities, de produtos primários ou semimanufaturados. Da mesma forma que a China de Deng Xiao Ping, o Brasil precisa desesperadamente de desenvolvimento tecnológico e inovação.

O número de patentes registradas pelo Brasil, China, Coréia do Sul e Estados Unidos dá uma pálida ideia da enorme discrepância existente entre esses países. A diferença de escala é tão grande que enquanto o Brasil é um traço horizontal sobre o eixos dos X, os outros países competem pelo primeiro lugar com números surpreendentes. Alguns vão tentar justificar a posição chinesa pelo número de habitantes e a americana pelo grandeza do seu PIB, mas como explicar a posição da Coréia do Sul que até 1953 estava em guerra, até 1980 era uma ditadura, tem uma população de somente 52 milhões de habitantes e gasta menos por estudante universitário que o Brasil?

O que for possível fazer somente com nossos recursos, intelectuais e financeiros, façamos.

O que não for possível, busquemos apoio, não importa onde

É importante que sejamos capazes e competentes para compatibilizar interesses nacionais, mesmo que às vezes pareçam divergentes.

NÃO IMPORTA A COR DO GATO, CONTANTO QUE ELE CACE O RATO! (Deng Xiao Ping – anos 70)

 

Luiz Depine de Castro – Engenheiro Químico (IME), Mestre em Engenharia Química – COPPE (UFRJ), Doutor em Ciência dos Materiais – Universidade de Bath (Inglaterra), Ex-presidente da Associação Brasileira de Carbono (2007 – 2017), Coronel Reformado do Exército, Consultor Tecnológico.