Miguel Gustavo de Paiva Torres

Madrugada no Planalto

Madrugada no Planalto

Um mês depois da edição da Medida Provisória que instituíra o cruzeiro novo e o bloqueio financeiro,  por 18 meses, de todos aqueles que dispusessem de mais de 50 mil cruzeiros novos em suas contas, decisão da equipe econômica chefiada por Zélia Cardoso de Mello, com o objetivo de usar a bala de prata que mataria a monstruosa inflação herdada do Governo Sarney.

Legalmente era necessário reeditar a medida provisória, que tinha validade de apenas 30 dias, para que continuasse vigente. Esse bloqueio, na avaliação da equipe econômica, seria fundamental para o sucesso do Plano Collor 1, porque sem a retirada da liquidez financeira no mercado, a inflação, àquela altura, não teria como ser tecnicamente debelada e já estava institucionalmente enraizada na cultura econômica do país. Somente uma paulada firme e fatal poderia virar o jogo do cassino inflacionário nacional.

Aquela medida provisória do bloqueio financeiro era considerada a pedra de toque do sucesso ou do fracasso da Nova República. Como a minha obrigação funcional era a de reunir, na Secretaria Geral da Presidência, todos os atos de governo que deveriam ser encaminhados à assinatura presidencial e ao Diário Oficial da União, para publicação no dia posterior, passava boa parte do dia telefonando para os chefes de gabinetes dos ministros, pedindo o envio das medidas a serem renovadas, que também tinham que ter a assinatura de cada ministro responsável por suas elaborações.

A partir das 18 horas comecei a ficar preocupado com a demora do Ministério da Fazenda em enviar a MP que renovava o bloqueio e o novo dinheiro do país, o cruzeiro novo. Estranhei que pouco mais tarde já não conseguia falar com ninguém da cúpula do ministério da fazenda, e atendiam apenas funcionários subalternos, que nada sabiam do tema.

Relatei ao secretario geral o que estava acontecendo e ele tentou falar com a ministra Zélia, pelo adiantado da hora e importância da MP. Surpresa. A ministra havia embarcado para São Paulo, e todos da sua equipe também tinham voado para longe do Planalto Central. Aborrecido, o embaixador Marcos Coimbra resolveu telefonar para o Presidente Collor em busca de alguma informação que esclarecesse aquela situação inaudita.

Passava das 21 horas e o Presidente, que acabara de chegar em casa, fazia exercícios, mas atendeu ao chamado. Informado da gravidade do assunto, que permitiria a todos que quisessem sacar a quantia que desejassem, inclusive centenas de milhões, no dia posterior, pela caducidade da MP, deu ordens para que se achasse a ministra Zélia, fosse colhida sua assinatura e enviada a medida para a assinatura dele. Foi uma noite e madrugada de tensão máxima e de horror.

A solução foi recorrer aos préstimos do Gabinete Militar da presidência, então chefiado pelo general Agenor Francisco Homem de Carvalho, para tentar descobrir o paradeiro da ministra da fazenda do Brasil. Já perto das 11 horas da noite conseguiram localizar a ministra, que se encontrava em uma reunião privada com o então ministro da justiça, Bernardo Cabral, em um hotel de São Paulo.

Simplesmente ela, e toda a sua equipe, haviam esquecido de assinar e enviar para o Palácio a MP que era a base de toda a estratégia econômica do governo. Um avião da FAB teve que decolar para São Paulo e trazer de volta para Brasília os responsáveis pela MP. Certamente, imagino, o Presidente da República deve ter ficado perplexo com esse grau de negligência e irresponsabilidade, certamente, quero acreditar, culposa e não dolosa. Mas de toda maneira irresponsável e até mesmo surrealista. A ministra foi mantida no cargo porque politicamente seria uma catástrofe sua demissão, a apenas um mês de sua posse, e com a população ainda em estado de choque com o bloqueio financeiro de suas contas e poupanças.

Mais tarde, como todos sabem, um bolero dançado à meia luz, no Clube das Nações em Brasília, abriu o caminho para a demissão de Zélia e de Bernardo Cabral. Ufa. Nunca mais.

Miguel Gustavo de Paiva Torres é diplomata.