Paulo Castelo Branco

Keep calm

Keep calm

Keep calm, teria dito o presidente Trump no telefonema que deu ao nosso presidente eleito Jair Bolsonaro.

A frase não fez sentido para Bolsonaro, que duvidou da tradução feita por um colaborador de campanha. O colaborador insistiu. Bolsonaro olhou para os lados e viu na face dos repórteres que Trump aconselhava mesmo que o nosso presidente tivesse calma.

Bolsonaro tem razão de duvidar do conselho, afinal ele aplicou à sua campanha um estilo muito próximo da conduta de Trump; o americano que não só ganhou a eleição como está conseguindo manter-se no poder há quase dois anos aos trancos e barrancos. Enfrenta graves problemas mundiais com decisões inusitadas, e as questões internas com agressividade e ameaças de calar tradicionais órgãos de imprensa e jornalistas. Com esses procedimentos, Trump cria embaraços e sai pelo mundo gerando confusões.

Em Bolsonaro, que se diferencia de Trump pela fé em Deus e, dizem, com bom humor carioca, já se observa nas entrevistas, depois de eleito, moderação na fala e nos gestos como se a transfusão de sangue a que foi submetido tenha sido de sangue bom, o que o tornou mais suave nas relações com seus adversários e interlocutores.

Ainda há tempo de Bolsonaro, como sempre diz, rever alguns pontos que foram anunciados sem análise mais aprofundada, especialmente nas relações internacionais. O presidente está se cercando de auxiliares respeitáveis, faltando, porém, ouvir diplomatas que conheçam com profundidade as nuances das relações internacionais, para que não fique no mesmo patamar de Trump, tomando atitudes que afetam a convivência entre os povos.

Um desses pontos é a situação da disputa entre Israel e a Palestina. Israel é um parceiro importante para o Brasil, e nos respeita pela participação da nossa diplomacia na criação do Estado Israelense. A decisão da ONU, reconhecendo dois estados independentes na região é recusada por Israel, que alega ações do Hamas que governa a Faixa de Gaza.

Há alguns anos, representando o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, a convite da Palestinian Bar Association, estive na Palestina e tive a oportunidade de constatar a dura realidade dos cidadãos que vivem na região. O governo de Israel, e não a comunidade judaica, impõe aos palestinos controles rígidos de trânsito além de manter campos de refugiados como Shuafat, onde vivem cerca de 20.000 pessoas em precárias condições desde 1966.

A afirmação de Bolsonaro em transferir a embaixada do Brasil para Jerusalém, seguindo o exemplo de Trump, é medida precipitada que deve ser melhor analisada, ouvindo estudiosos da questão e diplomatas brasileiros e de outras nacionalidades que mantêm representações na Cisjordânia que possam informá-lo não só sobre a questão econômica com relação a nossa balança comercial com Israel, como, também, sobre a questão dos direitos humanos e a existência de milhares de árabes que vivem no Brasil.

Bolsonaro foi eleito pela maioria dos eleitores, o que não é fato quanto a Trump eleito por colégio eleitoral; portanto, com a legitimidade de quem derrotou os desvairados petistas e seus aliados, deve olhar para Trump com a certeza de que os Estados Unidos se impõe mais pela força do seu poderio econômico e bélico e não pelo discurso popularesco inconsequente e desconectado com a realidade do mundo.

Tenha calma presidente, Jair Messias Bolsonaro, e se comunique, se preciso, em linguagem de libras que retirou cerca de 10 milhões de pessoas surdas que puderam entender o seu discurso e escolhê-lo como o melhor entre tantos candidatos.