Ney Lopes

Eleição define futuro de Trump

Eleição define futuro de Trump

Escrevo na véspera de 6 de novembro, dia em que os que os americanos irão às urnas, nas chamadas eleições de “meio de mandato”.

O curioso é que há 173 anos, os eleitores americanos só votam na terça-feira.

A tradição é mantida desde a lei de 1845, que estabeleceu um dia de voto comum para toda a nação. Na América Latina, a votação é no domingo.

Percebe-se grande diferença entre uma eleição nos Estados Unidos e no Brasil.

Nas ruas de Nova York, onde me encontro, não há o menor indício de disputa eleitoral. Nada de cartazes ou out doors. No último domingo, um recepcionista do hotel me disse que já havia votado, desde o mês passado. Situação curiosa para nós brasileiros. É que em muitos estados, a permissão de votar começa entre quatro e cinquenta dias, anteriores ao dia das eleições.

Taxista com quem conversei mostrou indignação com Trump, chamando-o de farsante e estimulador da violência. Sobre as melhorias econômicas no país disse que realmente elas ocorrem, mas são consequências de ações do governo Obama, que Trump está se beneficiando. Citou o risco de uma nova “bolha” imobiliária que se aproxima, igual a 2008, com grave crise econômica.

Na eleição desta terça feira, a média histórica de comparecimento é de 30% a 40% (voto facultativo). Serão eleitos Governadores em 36 estados e no Congresso o preenchimento de 435 vagas de deputados, com mandatos de dois anos e trinta e cinco das 100 cadeiras de senadores, com mandatos de seis anos, além de ocupantes de cargos públicos nos estados e municípios.

Em Nova York recorro aos serviços de um casal brasileiro, ele nascido em SP, criado no Maranhão e casado com cearense: Leco Campos e Danielle Mota. Eles, desde 2009 mantêm empresa de atendimento turístico (lecotur.com), com serviços excelentes.

Dessa vez reencontrei Leco orgulhoso. É que há um ano participou de “vaquinha” para pagar a estadia de convidado especial, que desejava conhecer pessoalmente, juntamente com outros brasileiros residentes na cidade.  Nada mais, nada menos, do que o então aspirante à candidato Jair Bolsonaro.

Segundo ele, todos os seus amigos ouviram as propostas e ficaram confiantes. Alguns, até já pensam em voltar ao Brasil.

Leco, embora radicado em NY, não esquece as origens brasileiras. Há dez anos mobiliza recursos com clientes do nível do empresário Benjamin Steinbruch, presidente da CSN, e mantém em Brasília a associação “Esporte e Vida” (esporteevida.com), onde atende cerca de 500 crianças e familiares, oferecendo oportunidades no esporte e laser.

Com a curiosidade de um repórter resolvi ir com Leco à Filadélfia, justamente no dia da eleição de meio mandato.

Localizada a 190 km de Nova York, Filadélfia, foi a primeira cidade norte-americana a receber o título de Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, por ter sido o local do debate e assinatura da declaração de independência e a Constituição, em 1776.

Desejava observar um dia de eleição, na terra onde nasceu a democracia americana.

Igual ao que vi em NY, Filadélfia dava a impressão de um dia absolutamente normal. Nenhum sinal de eleição nas ruas. Clima de dia comum.

Já assistira nos Estados Unidos, como observador parlamentar, convenções para a escolha de candidatos à presidência do Partido Republicano (1992), em Houston, Texas.

À época George Bush saíra glorificado da guerra do Kuwait e foi o indicado, mas perdeu a eleição para Bill Clinton.

A outra em 2000, dos democratas, no estádio “Staple Center”, Los Angeles, com a indicação de Al Gore para suceder Clinton. Depois de longa polêmica jurídica e suspeitas de fraude, Al Gore foi derrotado por George W. Bush.

Em que pese à tranquilidade externa nas ruas das cidades nota-se na mídia americana o clima de expectativa sobre o resultado eleitoral deste ano.

Indaguei a Leco sobre as chances de um impeachment contra Trump, que seria o primeiro na história do país, na hipótese dos democratas alcançarem maioria nas urnas.

Diz ele: “Essas eleições são duríssimas. Os democratas acordaram. Eles achavam que Hillary ganharia fácil e não foi bem assim. Agora estão dando “tudo” e o resultado é imprevisível”.

Quando este artigo for publicado, já serão os conhecidos os resultados das eleições de “meio de mandato” nos Estados Unidos.

Pelo que pude ler e ouvir na mídia, uma vitória do partido Democrata terá impactos desfavoráveis à Trump, sobretudo na investigação sobre a interferência russa nas eleições presidenciais.

Por outro lado, os Democratas enfrentam séria crise de identidade política. O partido divide-se entre os pretendentes à presidência em 2020,Joe Biden, de 78 anos à época e Bernie Sanders, que terá 77 anos, o senador defensor de avanços sociais, que teve grande apoio nas primárias passadas.

Os rumos políticos futuros dos Estados Unidos interessam especialmente ao Brasil, diante da notória identidade política entre Trump e Bolsonaro.

Afinal, é comum repetir-se que “gripe na economia americana ocasiona pneumonia global”.

Um “impeachment” na Casa Branca seria desastroso para o inicio do novo governo brasileiro!

Ney Lopes – jornalista, advogado, ex-deputado federal; ex-presidente do Parlamento Latino-Americano; professor de direito constitucional da UFRN; Procurador federal–  nl@neylopes.com.br –  www.blogdoneylopes.com.br