Luiz Lanzetta

Como quase vendi o Brasil de Pelotas para os gringos (com aval inocente do Felipão)

Como quase vendi o Brasil de Pelotas para os gringos (com aval inocente do Felipão)

Havia uma grande agitação no escritório quando voltei das férias no verão de 1997 para São Paulo. Nossa empresa ganhara um cliente importante, o fundo americano HMTF, que acabara de se associar ao Corinthians. A maioria dos funcionários – dos diretores aos boys – torcia pelo coringão. E o HMTF não estava economizando. Uma grande conquista, a nova conta.

A primeira coisa que tive que fazer: renunciar a minha participação numa ONG que recém criara com o ex-ministro José Luis Portela, (filho de pelotenses, torcedor do Brasil), e com os jornalistas José Roberto Toledo, Juca Kfoury e Bob Fernandes. Nome: Gol (Grupo Observador do Ludopédio), “um olho na bola, outro no cartola”, fora o slogan criado por nós. “Uma organização para fiscalizar a Lei Pelé… e o Pelé”, brincávamos.

– Fui para o outro lado – comuniquei ao sair fora. – Vou trabalhar com os donos dos cartolas agora.
( Mais tarde entraria a Nike, como cliente, em plena CPI dela mesma, presidida por Sandro Rossell na época).
Não dava para brincar mais. Afinal, eu era sócio e vice-presidente de desenvolvimento da então maior empresa de relações públicas e assessoria de imprensa do país. Tinha que zelar, prioritariamente, pelos negócios.

A passagem do HMTF pelo Brasil é conhecida. Um dos integrantes do Fundo era sócio do Bush Filho num time de futebol americano, em Houston, e resolvera que o futebol na América Latina era um excelente investimento. O HMTF saiu atrás de tudo: clubes, campeonatos, estádios, patrocínios, jogadores, televisão, internet, placas, camisetas e tudo o mais. Uma mega e caríssima operação, do México para baixo. Não deu certo, todos sabemos…

O executivo escolhido para tocar o projeto no Brasil foi Dick Law, um luterano com doutorado em literatura medieval, que trouxe com ele – para cuidar do cofre corinthiano! – um filho de um dos Intocáveis de Chicago, o célebre grupo da polícia que combateu Al Capone e sua turma.

Além do Corinthians, o HMTF também se associou ao Cruzeiro e pretendia ainda Internacional e Botafogo. Porém, uma lei votada às pressas no Congresso impediu que um investidor pudesse ser sócio de mais de dois times. Foi o primeiro tiro no projeto, aqui no Brasil. Na Argentina, os gringos não passaram do Aeroporto de Ezeiza. A barra do River Plate, quando soube da intenção dos americanos, partiu para o ataque físico mesmo. No Chile, queriam o Colo-Colo, mas descobriram que o país, na época, era menor economicamente que a região de Campinas.

O primeiro time formado no Corinthians até que deu certo, tendo como ponto alto a conquista do campeonato mundial de clubes, no Brasil, em cima do Vasco. Mas em seguida tudo começou a dar errado. Os atletas brigavam entre eles e com a torcida. O Timão passou a perder quase todos os jogos. O que teria havido? Uma forte hipótese: o intocável de Chicago havia tomado medidas rigorosas quanto às despesas históricas do clube. Fez cortes profundos. A folha salarial, que contava com muitos fantasmas, foi reduzida. Um dos demitidos foi o Pai Nilson, homem da ligação corinthiana com os deuses e diabos do futebol…

Começou a correr por São Paulo a história da maldição do Pai Nilson…

No desespero, para tentar salvar seu maior investimento no Brasil, Dick Law – que havia contratado o Felipão para o Cruzeiro – foi em busca de Wanderlei Luxemburgo para o Timão. Mas não bastava só o Luxa, Dick foi obrigado a contratar também a irmã do treinador, uma conhecida mãe-de-santo, em Vitória (ES), para desmanchar os trabalhos do demitido e ressentido Pai Nilson. Além do salário novo, da irmã do Wanderlei, o HMTF teve que arcar com os conhecidos ingredientes dos despachos: galinhas, velas… e vocês sabem do que estou falando.

– Como vou explicar isto em Houston? – perguntava-me um atormentado Dick Law, num restaurante de São Paulo. – Eles não vão entender esta história de vodu, magia…

Aproveitando que a conversa era sobrenatural e havia uma brecha para novos negócios, perguntei ao Dick:

– Por que o HMTF não compra um time que tem o nome do país, Brasil, que é marca mundial? É um time que teve a oportunidade de contratar o Pelé, mas que o esnobou. Com esta marca e com este fato esdrúxulo, vocês poderão atuar em qualquer lugar do mundo com grande sucesso. Lá na minha cidade (Pelotas) existe…

Dick achou que eu estava mais louco do que ele. Mas, numa viagem a Belo Horizonte, ele conferiu com o Felipão e com o Mortoza, meu vizinho da Rua Gonçalves Chaves, a veracidade das histórias sobre o Brasil que eu lhe havia contado. O Xavante era exatamente assim como eu havia descrito.

A história sobre o Pelé eu conhecia bem. Em 1976, fiz uma entrevista com o Joaquinzinho, ex-jogador do Brasil, Inter, Corinthians e Fluminense. Nesse papo, ele me falou sobre a famosa troca que acabou não ocorrendo entre Brasil e Santos. A matéria saiu na época num jornal chamado Xavante, que editamos eu e um pequeno grupo de jornalistas ( muito depois iria parar no Fantástico, com o Mauricio Kubrusly).

A história da troca do Joaquinzinho pelo Pelé aconteceu depois de um amistoso entre Santos e Brasil, em Pelotas, em 1956, quando Pelé estava começando. Os dirigentes santistas gostaram muito do Joaquinzinho (que já estava vendido ao Internacional). A proposta era levar o jogador do xavante em definitivo e, como compensação, deixar três juvenis emprestados por um período, entre eles o Pelé. O Brasil recusou. Esta história é confirmada pelos envolvidos, principalmente por Joaquinzinho e Pelé.

O Dick acabou gostando da ideia, mas o HMTF já estava fazendo as malas, despedindo-se da aventura sul-americana. Antes, tentaram erguer um estádio para o Timão. Trouxeram uma maquete dos Estados Unidos. Foram nos mostrar. Era muito bacana, mas havia espaço só para a torcida do Corinthians. Argumentamos que aqui no Brasil a torcida adversária também vai aos jogos no campo do rival.

– Ah, não tem problema – resolveu rápido o arquiteto americano. – A gente coloca uma divisão de vidro na arquibancada e separa dos dois grupos. Bem, não podia dar certo mesmo…
Dick ainda ficou no Brasil como representante do Arsenal e depois perdemos contato.
Mas o Brasil e o Felipão, que teve no Xavante a sua segunda oportunidade como técnico, encerram 2018 muito bem.