Percival Puggina

Opinião

18/05/2019

Verdade roubada, mentira vendida

Percival Puggina

Verdade roubada, mentira vendida

Todo dia, toda hora, em algum lugar, alguém está falando a nós, o povo. Falam-nos nos meios de comunicação, nas redes sociais, nas tribunas, nos púlpitos, nos palanques sobre o que nós, o povo, queremos. E sempre há alguém acusando outrem, por estar fazendo as coisas de modo diverso daquele que nós, o povo, desejaríamos. Essa apropriação, que nos converte em gado do discurso alheio, é uma espécie de abigeato praticado cotidianamente. Muitas vezes, a verdade nos é roubada e a mentira vendida ao povo. Há no povo homens e mulheres; há crianças, jovens, adultos e idosos (e também jovens idosos e adultos infantis); há pessoas instruídas e incultas, bem como sábios incultos e acadêmicos tolos; existem pessoas dos campos e das cidades, do febril anonimato das grandes metrópoles e das pequenas comunidades urbanas onde todos se conhecem; há pessoas de várias classes sociais e níveis de renda; há no povo uma diversidade cultural, racial e religiosa. Em cada grupo encontraremos bons e maus, trabalhadores e vadios, pessoas com e sem esperança, enfermos e sãos, cada qual com suas debilidades e fortalezas, vocações, inclinações e tendências políticas. Tudo isso é povo. Como pode alguém, pois, apropriar-se de todos e de cada um, como enlouquecido aparelho de rádio que sintonizasse, simultaneamente, o conjunto das emissoras? Ninguém, a rigor, tem o “povo” nas mãos, seja governo, seja oposição. (Espero que me entendam, quando digo isso, aqueles que mais precisam entender). Lembro-me do governo Olívio Dutra e do Orçamento Participativo (OP). Segundo seus promotores, aquilo era uma forma de atribuir ao “povo”, a decisão sobre o destino das verbas públicas. E o “povo” ia para lá e para cá nas assembleias do OP. Nelas o “povo” deliberava exatamente sobre os gastos não obrigatórios, as tais despesas discricionárias de que hoje tanto se fala. No final do processo, todo o “povo” convergia à Praça da Matriz para um grande comício com bandeiras vermelhas e palavras de ordem. Ali, testemunhavam algo insólito: a trepidante e inolvidável entrega do Orçamento do Estado à Assembleia Legislativa. Juro para vocês! Eu vi isso acontecer, mais de uma vez… As velhas entranhas do Theatro São Pedro, no outro lado da praça, roíam-se de inveja por nunca haverem reunido tanto público nem tantos talentos da nobre arte de representar. Ah! Claro, nenhum OP estadual gaúcho cumpriu, senão minimamente, o que foi deliberado pelo “povo”. O contingenciamento sempre pegou firme. Na recente mobilização do “povo” pela Educação, que ganhou repercussão nacional, eu assisti a uma repórter da Globo sublinhando que o ato não era político nem partidário… Qualquer imagem em close ou microfone aberto mostrava justamente o contrário nos cartazes, nas cores, nos símbolos, nos discursos. A Educação, a pobre e deficiente Educação nacional, foi intensamente maltratada, aliás, na gramática, no desapreço à verdade dos fatos e no escancarado paradoxo de quem silenciou em todos os contingenciamentos promovidos pelos governos petistas (cumprindo a lei, diga-se de passagem), e sai aos berros quando outro governo adota o mesmo procedimento. Existem políticos, jornalistas, sindicalistas, militantes, professores, que têm verdades de fabricação caseira. É uma produção barata, que conta com logística estruturada para circulação e distribuição. Percival Puggina, membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.
18/05/2019

Eles podem entrar até na nossa casa

Ronald de Carvalho

Eles podem entrar até na nossa casa

  ‘…matam nosso cão, e não dizemos nada…’   Confundir os direitos privados com a administração dos deveres públicos é erro de responsabilidade do gestor púbico. A administração do governo central não pode interferir nos recursos que não lhe saem do tesouro nacional, daquilo que em dias de Graça já foi chamado de Quinto dos Infernos e hoje é a própria Porta de Dante. Aqueles que já a ultrapassaram, perderam toda a esperança. Dinheiro do Estado é apenas aquele da Res Pública, latinismo da Coisa Pública, resultado do recolhimento de imposto pelas leis tributárias. Muito diferente são as contribuições que chegam da iniciativa privada para cumprir espontaneamente um desígnio constitucional. A noção de propriedade faz referência ao direito à posse de algo. Para a lei, a propriedade é o poder sobre um bem, que permite sua livre disposição além das limitações impostas pelas normativas em vigor. Sobre isso, há mais de 70 anos os empresários brasileiros têm plena consciência e ação. Um compromisso reafirmado pela obediência à Constituição de 1988, em seu artigo 5º, onde estabelece a propriedade como um direito fundamental e em seguida determina que a propriedade deve atender sua função social. Qualquer aula que o governo quiser dar à iniciativa privada de como praticar seu dever de criar empregos, atender à saúde do trabalhador, à cultura, ao lazer, à formação de mão de obra e à construção da cidadania é um grande perigo. Hoje a pressão dos doutores da máquina estatal pode estar começando sobre as grandes associação e organizações confederadas, amanhã, podem entrar na loja ou indústria do cidadão comum. “Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada.” Esses conhecidos versos fazem parte do longo poema “No caminho com Maiakóvski” (1968) do brasileiro Eduardo Alves da Costa. Durante algum tempo o poema foi atribuído ao poeta russo Vladimir Maiakóvski (1893-1930). Na administração das inteligências, muitas vezes, há crimes sem cadáver. A ausência forçada da iniciativa privada na formação da juventude brasileira vai agravar uma herança lamentável. Novo tempo com jovens atores se faz com saúde, esporte, treinamento, capacitação, moderna tecnologia e liberdade de pensar. Um Estado pesado, antigo, quase falido não constrói talentos. O resultado é a ruína do pensamento e da modernidade. Milhares de jovens buscam no exterior seu modelo de sucesso. Os mais pobres se valem do apoio do incentivo de empresários, federação de classe e empreendedores que precisam criar trabalhadores saudáveis, felizes e profissionalmente qualificados. Até quando? Até quando vão roubar-nos a luz, conhecer nosso medo e arrancar-nos a voz da garganta. Ronald de Carvalho é jornalista e consultor estratégico de comunicação.
18/05/2019

Manifestações temáticas

Marli Gonçalves

Manifestações temáticas

Aí o Lé vai com Cré. A solução para os conflitos, para essa divisão horrorosa que mergulha o país nesse baixo astral, pode estar bem diante de nossos olhos. Se Lé não pensa a geral como o Cré, Lé com Cré podem e devem se unir em temas específicos, como fizeram essa semana na gigantesca manifestação pela Educação Estou otimista com a proposta. Podemos ir aos poucos, não precisa ser de uma só vez.  Junta um montinho aqui, outro ali, e quando a gente menos esperar, quem sabe o país não volte a ser um lugar legal, amistoso, democrático, e que cada um possa ter suas próprias opiniões sobre alguns fatos sem ser atacado, sem tanta virulência? Para tanto, claro, inicia-se, primeiro, com boa vontade, e com o esquecimento de quem está presidente, qual ex-presidente – ou ex-presidentes, porque ainda tem essa – está preso, ou estão presos. Lembrar que se estão em apuros é porque alguma fizeram, e não adianta se descabelar na defesa deles – os advogados cuidam disso. Vamos só pelo que une, de um lado e de outro. Ninguém concorda com tudo o que esses lados, pontas esquerda e direita, propõem. Escolheremos temas gerais, podem ser importantes, ou mesmo bobos, mas que mobilizem algumas pontas desfiadas dessa nossa insana política. O exemplo dado pelas gigantescas manifestações em mais de uma centena de cidades ocorrida essa semana em protesto pelos cortes, contingenciamentos, agruras, ou seja lá quais raios estão torrando nossa Educação pode ser seguido. Fui pessoalmente ver como foi lá na Avenida Paulista, e foi muito emocionante ver aqueles milhares de jovenzinhos misturados a professores, pais, cientistas, universitários. Tudo bem que acabou sendo contra este governo em geral, mas juntou muitas posições políticas e, inclusive, certamente, gente que votou no homem, mas discorda de algumas de suas ideias e de seus atos, ou mesmo agora já demonstra seu arrependimento, o que é compreensível. Lembrem que as opções na reta final foram dramáticas, duas, diametralmente opostas; e lembrem também do enorme número de abstenções, votos nulos e brancos. Há salvação. Recordam daquela propaganda antiga “o que seria do amarelo se todos gostassem só do azul”? Então…Aos pouquinhos podemos juntar os dois e criar o verde. Como tudo ultimamente tem dado bafafá, peguemos alguns temas. Mês que vem terá a grande parada LGBT em São Paulo. Vocês pensam que não existem gays bolsonaristas? Existem, eu mesma conheço alguns, e com os quais não adianta argumentar nas bases reais. E não são enrustidos, como muitos outros devem ser; são apenas confusos. Vamos falar do que interessa a todos. Mulheres, mais da metade da população. Não é possível que existam mulheres que não se incomodem com o visível crescimento da violência, da ocorrência diária de feminicídios, e da pouca efetividade das ações públicas para a efetiva e real proteção das vítimas. Até quando o silêncio das ruas? A questão das drogas, logo logo logo chegam as Marchas do Legalize Já. Outro assunto que pode unir umas pontas, sem trocadilhos. A mudança aprovada pelo Senado essa semana permitindo o internamento compulsório de dependentes químicos é de uma crueldade e não-entendimento do assunto que será mais um ponto que vale reflexão e união. Outro tema grande é a Previdência. Que precisa de uma reforma, nos parece ponto acordado. Mas qual reforma? Como podemos ficar quietos quando nesse exato momento existem mais de dois milhões de solicitações de aposentadorias, justas, direitos adquiridos, paralisadas? Dizem que o atraso é porque – ironia – os funcionários do próprio INSS estão se aposentando sem serem substituídos. Pensei em mais alguns temas para juntar gregos e troianos, e lés com crés. Veja se você tem mais ideias e ajuda aí porque pelo andar da carruagem precisaremos agir juntos, e rápido. Que tal passeatas de felizes proprietários de Golden retrievers(impressionante, cada vez mais abundantes, pelo menos aqui em São Paulo)? De veganos, preocupados com o escancarado aumento dos preços das frutas, verduras e legumes nas feiras e mercados? Dos que gostam de café sem açúcar? De não usar calcinhas, cuecas o sutiãs? Ou logo mesmo uma manifestação de naturistas, apenas defendendo a beleza e naturalidade da nudez que vem sendo vista como pecado mortal? Enfim, motivos não faltam. Mas tem de combinar antes, em qualquer uma dessas, não citar duas palavras: nem Bolsonaro, nem Lula. Pode ser? Marli Gonçalves, jornalista – Aliás, os jornalistas já deviam faz tempo estar nas ruas protestando por conta dos desacatos que vêm sofrendo. Como e que é?  marligo@uol.com.br/ marli@brickmann.com.br
17/05/2019

Caridade tem hora

Sergio Moura

Caridade tem hora

“Vou ajudar a aprovar o projeto dele”, declarou o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, sobre o pacote anticrime de Moro, de acordo com o Antagonista de 14/5/19. Que condescendência franciscana! Caridade igual é difícil de se encontrar! Ah, se todos os brasileiros tivessem um espírito comunitário tão desprendido quanto o do deputado federal Rodrigo Maia! Parece que os fluminenses puseram uma bola dentro quando o elegeram. O único senão é que ele não entende qual é o papel dele frente aos 209 milhões de brasileiros que ele devia, constitucionalmente, representar. Ele não tem o cargo que tem nem recebe de nós a fortuna mensal que recebe, nem os privilégios de que dispõe, para ser simpático com um ministro de Estado. Ele está ali para defender o bem comum. Se temos um problema de insegurança – 60 mil assassinatos por ano, o 11º país em assassinatos no mundo, de acordo com a OCDE, para ficar só por aqui – e, se este problema vem-se agravando há décadas, é de responsabilidade dele, deputado federal há 21 anos e presidente da Câmara dos Deputados desde 14 de julho de 2016, resolvê-lo. Se não o fez até agora é por descaso, para não citar possíveis outros motivos. Logo depois de o presidente Jair Bolsonaro ter enviado proposta de emenda à Constituição ao Congresso Nacional sobre medidas para aumentar a segurança, Maia declarou que o texto era um “copia e cola” do texto enviado ao Congresso em 8/5/18 por Alexandre de Moraes, atualmente ministro do STF. Fazia, portanto, quase um ano que os congressistas, Rodrigo Maia, inclusive, estavam de posse de alguma proposta para proteger melhor nossa vida e nossa propriedade, sem falar que deve haver muitas outras proposições semelhantes mofando nas gavetas das Casas do Congresso. Por que o nosso presidente da Câmara dos Deputados há quase três anos não acelerou o andamento dessas proposições? Desinteresse. Por que ele não se interessa pela vida e propriedade dos brasileiros? Simples: porque a Constituição defende a irresponsabilidade dos políticos eleitos: eles podem fazer a besteira que fizerem com nossa vida e nossa propriedade, ou se omitirem, que por nada respondem. Põem a culpa sempre no presidente da República, como estão a fazer hoje com as diversas propostas do presidente Bolsonaro. E não deixam de ter alguma razão porque a Constituição cria na mente deles a percepção errônea de que o principal legislador do País deva ser o presidente da República. Aí, eu pergunto: qual é o custo/benefício deste Congresso? O que recebemos pelos cerca de R$ 11 bilhões – R$ 21,5 milhões por cabeça – que gastamos todos os anos com senadores e deputados? O que recebemos é miséria, pobreza ou mediocridade econômica, o que o rendimento médio mensal de R$ 1.330 de 112 milhões de brasileiros (IBGE) comprova. Vale a pena esse investimento? Sérgio Moura, advogado, ex-executivo da IBM Brasil, ex-consultor em formulação de políticas públicas, autor dos livros Chega de Pobreza (edição do autor, 2006) e Podemos ser prósperos – se os políticos deixarem (edição do autor, 2018), Fellow do Institute of Brazilian Issues da George Washington University, Oficial da Ordem do Mérito Brasília e detentor da Medalha do Pacificador