NOVO TAMANHO DA FLORESTA

Brasil CT&I

Estudo é resultado de um extenso trabalho de mapeamento da Amazônia por satélite
19/05/2019

Cientistas brasileiros sugerem redefinição dos limites da Amazônia

NOVO TAMANHO DA FLORESTA

Cientistas brasileiros sugerem redefinição dos limites da Amazônia

Estudo é resultado de um extenso trabalho de mapeamento da Amazônia por satélite

Pesquisadores de três universidades brasileiras publicaram na última edição da revista científica Biodiversity and Conservation o artigo Redefining the Cerrado-Amazonia transition: implications for conservation (Redefinindo a transição Cerrado-Amazônia: implicações para a conservação, em tradução livre). A pesquisa revelou que a região é maior do que indicado nos mapas oficiais e área de transição da floresta com o Cerrado é mais biodiversa do que em cada bioma em separado. Resultado de um extenso trabalho de mapeamento da Amazônia por satélite, o estudo recebeu financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), no âmbito dos Programas PELD (Pesquisas Ecológicas de Longa Duração) e PPBio (Pesquisa em Biodiversidade). O fomento à pesquisa em biodiversidade é, ainda, parte do compromisso do CNPq com a Estratégia e Plano de Ação Nacionais para a Biodiversidade – EPANB, que visa conservar a biodiversidade e usar sustentavelmente os componentes da biodiversidade. Os pesquisadores levaram em conta 30 anos de análises, a partir de 1984 e nos demais anos, até 2014, e observaram que a transição Cerrado-Amazônia (TCA) sofreu mais desmatamento do que as florestas e savanas, se analisadas individualmente. Segundo o engenheiro florestal Ben Hur Marimon Junior, professor da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq e líder da pesquisa, e Eraldo Matricardi, da Universidade de Brasília (UnB), especialista em Geoprocessamento, os limites foram mal compreendidos principalmente ao sul da Amazônia, onde muitas áreas de florestas foram mapeadas como Cerrado, que é menos protegido por lei. “Como consequência, as perdas de vegetação atingiram níveis próximos ao colapso em áreas de intensa atividade agropecuária”, afirmam os pesquisadores. O que os motivou a pesquisar os limites da Amazônia foi a constatação, em campo, de que muitas áreas no mapa oficial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que constavam Cerrado eram, na verdade, florestas ecotonais, isto é, de transição ambiental (de contato entre os biomas). Ben Hur explica que são florestas diferentes, de árvores menores, muito importantes porque formam uma espécie de escudo de proteção das áreas. “E são bastante resistentes a queimadas, por exemplo”. Essa resistência – complementa – se refere à capacidade de rebrota. “Não significa que não são afetadas. Elas pegam fogo, mas conseguem brotar novamente com grande capacidade, fazendo um trabalho como se fosse de proteção às matas de transição. Por outro lado, constatamos que áreas de florestas maiores, mais densas, também constavam como Cerrado denso nos mapas oficiais. Então, a gente se perguntou o que aconteceu que levou a esses erros de mapeamento? E decidimos refazer os limites”, conta Ben Hur. Ao checarem o mapeamento oficial, os pesquisadores verificaram que as ferramentas utilizadas na época, quando os mapas foram produzidos, nos anos 1970, eram imagens de radar. “Existem falhas nos mapas oficiais porque a tecnologia não permitia o mesmo nível de detalhamento que temos hoje”, diz Eduardo Queiroz Marques, mestre em Ecologia e Conservação pela Unemat, onde também atua como pesquisador técnico, e primeiro autor do artigo. Mapa publicado no artigo pelos pesquisadores apresenta o limite Cerrado-Amazônia definido considerando os tipos de vegetação que ocorrem nesta região. A linha divisória entre os biomas definidos neste estudo (em azul) não coincide com a linha previamente definida pelo mapeamento oficial (em preto) Proteção ambiental Sem uma visualização mais precisa da vegetação, possível nos dias atuais graças aos satélites, era natural que algumas áreas de florestas de transição fossem confundidas com Cerrado, na avaliação dos pesquisadores. “Essa imprecisão aconteceu não por falta de capacidade técnica ou de empenho das equipes que trabalharam no mapeamento, mas pela característica da tecnologia aplicada na época. De qualquer modo, é uma situação que precisa ser corrigida, uma vez que florestas de contato foram compreendidas como algum tipo de Cerrado”, salienta Ben Hur. Mas, afinal, qual a relação desses achados com a proteção das áreas? De acordo com Beatriz Marimon, professora da Unemat e coautora do estudo, alguns tipos de florestas foram confundidos com Cerrado, que é menos protegido por lei. “Como consequência dessa imprecisão, foi permitido o desmatamento acima do que deveria”, alerta a pesquisadora, que lidera a Rede CNPq/PELD e RAINFOR de Inventários Amazônicos. “É como se a grande barreira de proteção da Amazônia tivesse sido rompida”, complementa Bem Hur. Os pesquisadores dizem que não podem precisar ainda o quanto a Amazônia real é maior do que a oficial, mas a sua fronteira com o Cerrado deve ser reconsiderada como uma extensa faixa, com larguras que podem chegar até 250 km, e essa medida é importante para a preservação da floresta. “É preciso reposicionar a Amazônia e o Cerrado nos mapas oficiais para melhor adequar os dois maiores biomas brasileiros às leis e políticas públicas de proteção da biodiversidade”, enfatiza Matricardi. “A agropecuária é o grande motor do desenvolvimento do Centro-Oeste brasileiro, mas é preciso garantir a manutenção das florestas nativas para que elas continuem cumprindo o seu papel de regulação climática. Por isso, apontamos para a necessidade urgente da criação de uma zona especial de amortecimento ao sul e sudeste da Amazônia, para preservar a vegetação e garantir chuvas regulares para as lavouras e pastagens da região”, diz Ben Hur. Líder do projeto CNPq/PPBio, que investiga a vegetação no sul da Amazônia, o pesquisador salienta que o erro de mapeamento levou a um erro de planejamento, cujo resultado é a perda de muitas florestas de transição. Para Bem Hur, os resultados do estudo são importantes para compreender o que aconteceu nas bordas da Amazônia, onde houve “uma grande ruptura de um cinturão de florestas ecotonais, deixando a área mais vulnerável ao fogo e aos ventos, que começam a abrir muitas clareiras”. Para complicar ainda mais a situação, segundo Bem Hur, a região é bastante sensível às mudanças climáticas, tanto em âmbito local quanto global, devido ao aquecimento do planeta. “Porque quando se desmata uma região de floresta, você tem um aumento de temperatura, e tem redução de chuvas, que é outro trabalho em que estamos revelando a magnitude, o quanto reduzem as chuvas após o desmatamento. Tudo isso é chamado de efeito de borda, ou seja, está acontecendo pelas bordas da Amazônia”. Ben Hur conclui relembrando uma máxima dos anos 1970: “Quando a política era de incentivo a ocupação das fronteiras da Amazônia, os pioneiros diziam: – Olha, a floresta amazônica é como um prato de sopa quente, é devorada pelas bordas. Então, esse foi o grande problema, houve uma falta de planejamento, porque nós não tivemos o mapeamento apropriado, e consequentemente não tivemos um planejamento adequado para proteger mais essas florestas de transição, e acabou-se criando um efeito de borda grande, que ameaça a Amazônia como um todo. Estamos refazendo os limites e até o final deste ano lançaremos o novo mapa”. Fazem parte da pesquisa equipes do Laboratório de Ecologia Vegetal da Unemat, Campus de Nova Xavantina, do Laboratório de Geoprocessamento vinculado ao curso de Engenharia Florestal do Instituto de Tecnologia da UnB, do Departamento de Zoologia – Coleção Herpetológica da UnB, e Centro de Ciências Biológicas e da Natureza da Universidade Federal do Acre (UFAC). Além das três universidades brasileiras, há ainda a cooperação com a Universidade de Leeds, Inglaterra, que não participou diretamente da publicação, mas integra o projeto que faz os levantamentos visando ao novo mapa a ser lançado ainda em 2019. O artigo completo está disponível em  https://doi.org/10.1007/s10531-019-01720-z A EPANB A EPANB é um instrumento de monitoramento do progresso das ações brasileiras que constam de seu Plano de Ação para a Biodiversidade. Ela é um também um instrumento que cumpre a Meta 17 de Aichi, assumida pelo Brasil no âmbito da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB, por sua sigla em português). O CNPq atua, especialmente, no cumprimento da Meta 19 da EPANB, de incentivo à ciência e tecnologia para a biodiversidade. Saiba mais: http://www.mma.gov.br/images/arquivo/80049/EPANB/EPANB_PORT.pdf (CNPq)   Leia mais sobre Ciência, Tecnologia e Inovação em BRASIL CTI.
18/05/2019

Ministério do Meio Ambiente retoma estudos de descontaminação na Antártica

ESTAÇÃO ANTÁRTICA COMANDANTE FERRAZ

Ministério do Meio Ambiente retoma estudos de descontaminação na Antártica

Trabalho em parceria com várias instituições visa despoluir solo do entorno da base brasileira parcialmente destruída por incêndio em 2012

Com o término das obras de reconstrução da Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF), que será reinaugurada em janeiro do próximo ano, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) e parceiros vão retomar os estudos de descontaminação do solo no entorno da estação. Os trabalhos serão reiniciados no próximo verão. Os técnicos vão fazer o diagnóstico da pluma de contaminação e implementar o Plano de Gerenciamento de Áreas Contaminadas, que apontará as melhores técnicas de tratamento e remediação para cada item considerado impactante ao meio ambiente. A base brasileira no continente antártico sofreu incêndio de grandes proporções em fevereiro de 2012. Pelo menos 70% das instalações foram destruídas, causando a contaminação do solo com poluentes orgânicos e inorgânicos. Na época, o Brasil desenvolvia cerca de 20 projetos de pesquisa científica no local, incluindo observação atmosférica, monitoramento ambiental de baleias e algas e monitoramento climático. O gerenciamento de área contaminada visa reduzir, para níveis aceitáveis, os riscos a que estão sujeitos as pessoas e o meio ambiente em decorrência de exposição às substâncias poluentes. Para isso, são adotadas medidas que buscam assegurar o conhecimento dessas áreas e dos riscos associados, proporcionando instrumentos necessários à tomada de decisão quanto às formas de intervenção mais adequadas. Nesse sentido, o Ministério do Meio Ambiente, com o apoio de várias instituições parceiras, vem cumprindo as diretrizes estabelecidas no Protocolo de Madri quanto ao monitoramento ambiental contínuo e implementando as medidas de remediação necessárias na área do entorno da EACF. Entre outras coisas, o Protocolo, assinado em 1991, elevou o continente antártico à condição de Reserva Natural Internacional dedicada à Ciência e à Paz e prevê a proteção integral do continente por, pelo menos, 50 anos. COORDENAÇÃO O MMA é responsável pelo segmento ambiental do Programa Antártico Brasileiro, o Proantar. Coordena as ações de monitoramento ambiental, prevenção e atendimento a emergências ambientais na área da EACF, em parceria com a Coordenação Geral de Emergências Ambientais do Ibama (CGEMA), o Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP), a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) e a Universidade Federal de São João Del-Rei (UFSJ). Além das ações preventivas, são realizados trabalhos de investigação e delimitação de áreas possivelmente contaminadas, bem como a adoção de estratégias e procedimentos para sua descontaminação. Com o objetivo de executar avaliação ambiental na área de influência direta da EACF por meio de indicadores químicos e biológicos, em atendimento ao monitoramento previsto no Protocolo de Madri, a equipe do IO-USP iniciou programa de monitoramento em 2012, tendo como metas monitorar os aportes de poluentes orgânicos e inorgânicos na Baía do Almirantado; avaliar os possíveis impactos causados na biota pelos aportes dos poluentes empregando os indicadores microbiológicos; e fornecer dados para as séries temporais dos poluentes, contribuindo para o estabelecimento da linha de base dinâmica, representando a faixa de variabilidade natural do ambiente. Além das atividades de monitoramento realizadas pela equipe do IO-USP, o setor de investigação de áreas contaminadas da Cetesb passou a fazer em 2013 a avaliação da área da EACF e delimitação da pluma de contaminação por combustíveis fósseis. Desde então, o trabalho teve sequência nos verões antárticos, com indicações preliminares de áreas contaminadas. Diante da necessidade de descontaminar a área previamente indicada no levantamento da Cetesb, foi iniciado em 2014 o processo de remediação por meio de projeto desenvolvido pela equipe da UFSJ em apoio ao MMA. Os objetivos principais eram “tratar o solo do entorno da EACF contaminado com óleo diesel para diminuição dos teores de hidrocarbonetos e realizar experimentos de tratamento de solo contaminado in loco para definição de procedimentos para a imediata remoção e tratamento de solo que venha a ser contaminado futuramente por vazamentos de óleo”. No entanto, em função da obra de reconstrução da estação antártica brasileira, a localização do solo contaminado foi alterada pelo constante revolvimento de materiais e realização de cortes e aterros necessários ao andamento da construção. Além disso, faltou espaço físico no canteiro de obras para o correto gerenciamento do solo, causando a suspensão do trabalho de descontaminação no verão 2017/2018. Apesar disso, o monitoramento continuou sendo executado, mesmo com as obras de reconstrução. Agora, com o fim das obras, esse trabalho será retomado. SAIBA MAIS Tratado da Antártica O Decreto nº 75.963, de 11 de julho de 1975, marca a adesão do Brasil ao Tratado da Antártica, sendo criado, em 1982, o Programa Antártico Brasileiro (Proantar). O bom desempenho da Operação Antártica I resultou em reconhecimento internacional que culminou na aceitação do Brasil como Parte Consultiva do Tratado da Antártica no ano de 1983. No verão antártico 1983/1984, as atividades consistiram na escolha do local para implantar a estação brasileira e, em 6 de fevereiro de 1984 a Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF) foi instalada na Península Keller, Baía do Almirantado na Ilha Rei George. Protocolo de Madri O Protocolo ao Tratado da Antártica sobre Proteção ao Meio Ambiente, também chamado de Protocolo de Madri, foi assinado em 1991, como complementação ao Tratado da Antártica, elevando o continente antártico à condição de Reserva Natural Internacional dedicada à Ciência e à Paz. Por meio do Decreto nº 2.742, de 20 de agosto de 1998, o Brasil promulga o protocolo que visa a proteção integral da Antártica por pelo menos 50 anos, só podendo ser alterado por unanimidade dos membros consultivos do Tratado da Antártica. Alguns artigos do Decreto nº 2.742/1998 merecem especial atenção, por seu caráter preventivo e remediador de impactos ambientais, como o Art. 3º, acerca dos Princípios Relativos à Proteção ao Meio Ambiente na Antártica; e o Art. 15, que apresenta diretrizes para Reação Diante de Situações de Emergência. (MMA)   Leia mais sobre Ciência, Tecnologia e Inovação em BRASIL CTI.
18/05/2019

Pesquisadores extraem substância antimicrobiana da casca da castanha do caju

REMÉDIO NATURAL

Pesquisadores extraem substância antimicrobiana da casca da castanha do caju

Pesquisa abre espaço para o surgimento de uma nova rota de exploração comercial na cajucultura

Cerca de 65% da composição do Líquido da Casca de Castanha de Caju (LCC) é formada por ácidos anacárdicos, uma classe de substâncias com atividade antioxidante e antimicrobiana e alguns estudos mostram potencial de ação antitumoral e antiparasitária. Pesquisadores do Laboratório Multiusuário de Química de Produtos Naturais da Embrapa Agroindústria Tropical (CE) desenvolveram um processo para extrair, purificar e quantificar esses compostos, o que abre espaço para o surgimento de uma nova rota de exploração comercial na cajucultura. Conforme o pesquisador da Embrapa Edy Brito, embora a atividade biológica dos ácidos anacárdicos seja conhecida desde a década de 1940, a fonte mais abundante dessas substâncias é desperdiçada. Nas grandes indústrias de beneficiamento de castanha de caju, a alta temperatura empregada no processamento degrada os ácidos presentes no LCC. Nas pequenas fábricas, embora não ocorra a degradação durante o processamento, as cascas, que correspondem a 70% do peso da castanha, quando não são descartadas, acabam alimentando fornalhas. “A queima é um problema, porque pode gerar gases tóxicos”, alerta o cientista. O método de quantificação e de isolamento desenvolvido na Embrapa é o primeiro passo para o aproveitamento dos ácidos anacárdicos, que atualmente não estão disponíveis no mercado. “A obtenção desses padrões de forma reprodutível é uma etapa importante para viabilizar o aproveitamento dessas substâncias em diversos fins”, esclarece o pesquisador. Os padrões desenvolvidos servirão como modelo para controle de qualidade em diferentes estudos, inclusive para possíveis futuras explorações comerciais. Entenda o processo Para aproveitar o material, o processo começa com a prensagem das cascas e obtenção do líquido rico em ácidos anacárdicos. O resíduo, ou a torta da prensagem, está sendo estudado na produção de MDF ou compensados. Com o líquido, os pesquisadores obtiveram o anacardato de cálcio e os ácidos anacárdicos, que são uma mistura de três ácidos de estrutura parecida e de difícil separação. A equipe isolou cada um dos ácidos e validou uma metodologia para quantificar cada um dos três tipos. Os pesquisadores geraram quantidades suficientes para realizar testes biológicos e para produzir padrões analíticos. O trabalho evoluiu para a definição de parâmetros operacionais para a escala preparativa (quando as quantidades mudam de microgramas para centenas de miligramas). Os resultados incluíram o desenvolvimento dos padrões para controle de qualidade utilizando equipamentos de cromatografia líquida de alta pressão. O passo seguinte da pesquisa foi aprimorar os processos, ganhando eficiência. Na escala preparativa, foi possível dobrar a produtividade em grama por hora (com pureza acima de 95%), diminuindo em 50% o consumo de solvente. Com essa escala é possível fornecer material para controle de qualidade e para testes biológicos. Aplicações no combate ao câncer Os primeiros registros na literatura científica relacionados a ácidos anacárdicos evidenciaram a atividade antimicrobiana desses compostos. “Hoje em dia há trabalhos avaliando a citotoxicidade e a utilização no combate a células cancerígenas”, diz o pesquisador Edy Brito. De acordo com ele, já existe patente para uso no controle de coccidiose em animais domésticos. Desde 2016 está em estudo, em parceria com a Embrapa Caprinos e Ovinos (CE), a atividade antiparasitária dos ácidos anacárdicos em caprinos e ovinos. O pesquisador Marcel Teixeira explica que a resistência a vermífugos atualmente é o maior desafio relacionado ao controle de parasitas nesses animais. Ele acredita que a substância pode atuar como antiparasitária e como moduladora dos canais de transporte que conferem a resistência a classes específicas de drogas anti-helmínticas. “Poderia ser uma saída para situações em que há resistência estabelecida, o que é de grande interesse para a indústria veterinária”, diz o pesquisador. Os primeiros resultados do estudo indicam atividade ovicida e larvicida em laboratório sobre o nematoide H. contortus, porém, sua ação como modulador da resistência anti-helmíntica continua sendo investigada. Outra linha de estudos desenvolvida pela Universidade Federal do Ceará (UFC) avalia a utilização dos ácidos como aditivos antioxidantes para produtos alimentícios, principalmente em sistemas que apresentam gordura. “Estudos apontam que eles evitam a oxidação da carne, o que pode melhorar o tempo de vida de prateleira de produtos como os embutidos, por exemplo”, diz o pesquisador. Uma possível aplicação é o uso como aditivo em rações. Existem ainda avaliações em andamento para outras atividades biológicas na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (DF). (Embrapa) Química de produtos naturais é oportunidade para o Brasil Compostos bioativos identificados em plantas, animais e microrganismos são largamente empregados nas indústrias farmacêutica e agroquímica. Nos Estados Unidos, um levantamento feito entre 1981 e 2014 mostrou que 30% de todas as drogas aprovadas pelo Food and Drug Administration (FDA) são genuinamente naturais, derivadas de produtos naturais ou sintetizadas a partir de um modelo existente na natureza. Entre as drogas anticâncer essa proporção salta para 55%. Da mesma forma, produtos naturais ocupam um lugar de destaque no setor agroquímico, representando naquele país cerca de um terço das vendas de inseticidas e de fungicidas, além de 12% das de herbicidas. No Brasil, dado o tamanho do mercado farmacêutico-agropecuário e a riqueza da biodiversidade nacional, os produtos naturais são ainda pouco aproveitados economicamente para essas finalidades. Por esse motivo, os pesquisadores vislumbram grandes oportunidades de avanço nas próximas décadas para bioindústria. Um grupo de pesquisa da Embrapa Agroindústria Tropical tem se dedicado a uma etapa-chave para o aproveitamento de substâncias bioativas ainda pouco exploradas: o desenvolvimento e validação de métodos analíticos para a quantificação de compostos naturais. Em geral, esses elementos são metabólitos secundários, presentes em baixíssima quantidade, que demandam análises precisas e sensíveis e cujos padrões muitas vezes não estão disponíveis no mercado. O trabalho inclui o desenvolvimento dos padrões para a calibração dos equipamentos e a validação de métodos reprodutíveis. O desenvolvimento desses protocolos é fundamentado em recomendações, critérios e normas internacionais de qualidade. No último ano, a equipe do Laboratório Multiusuário de Química de Produtos Naturais desenvolveu, além do método de quantificação de ácidos anacárdicos presentes no Líquido da Castanha de Caju, os métodos de quantificação de lipopeptídeos produzidos por Bacillus subtilis; de urudelvinas encontradas na aroeira; de alcalóides da açucena; e de três substâncias da macela-da-terra (Egletes viscosa):  ternatina, ácido centipédico e lactona do ácido hawtrivaico. Entregou também o protocolo do ácido clorogênico da batata yacon, além dos padrões de mais de 20 compostos fenólicos presentes em frutas tropicais. Os métodos constituem-se ferramentas básicas para o controle de qualidade, para o desenvolvimento de produtos a partir de substâncias bioativas, para avaliação da estabilidade e rendimento de matérias-primas. São fundamentais, ainda, para ensaios biológicos. Os resultados são a base para o desenvolvimento de estudos como avaliação da qualidade de produtos naturais e desenvolvimento de sistemas de produção de plantas fornecedoras de matérias-primas para indústrias, entre muitas outras aplicações.   Leia mais sobre Ciência, Tecnologia e Inovação em BRASIL CTI.
17/05/2019

UFRJ detecta vírus Mayaro no estado do Rio de Janeiro

FEBRE DE MAYARO

UFRJ detecta vírus Mayaro no estado do Rio de Janeiro

Vírus comum na região Norte provoca febre e dores nas articulações, provocando confusão na tentativa de diagnóstico clínico

Há um novo vírus transitando no estado do Rio de Janeiro. Essa é a conclusão de um recente estudo do Laboratório de Virologia Molecular, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Provocada pelo vírus de mesmo nome e “primo” da Chicungunha, a febre de Mayaro é observada de forma endêmica na região Norte do país. A infecção pelo vírus, pertencente à família Togaviridae e ao gênero Alphavirus, causa febre alta e dores articulares crônicas, o que provoca confusão na tentativa de diagnóstico clínico, se baseado apenas nas características sintomatológicas das infecções. Como o estudo foi feito Em 2016, o Laboratório fez diagnóstico molecular de arboviroses na região Sudeste (dengue, zika, entre outros), incluindo o vírus da Chicungunha, que ocasionou, em 2016, um surto na região Sudeste, persistindo com seu maior índice agora em 2019. Sob coordenação dos pesquisadores Amilcar Tanuri e Rodrigo Brindeiro, foram estudadas 279 amostras indicativas de infecção pelo vírus da Chicungunha, seguindo o quadro sintomatológico. Do total, 57 amostras (duas em cada dez) não apresentaram diagnóstico molecular para o próprio vírus nem sorológico, sendo consideradas de análise indeterminada. Isso se deve, principalmente, ao tempo de coleta das amostras clínicas para diagnóstico (sangue e urina), que só possuem sensibilidade para detecção do vírus da Chicungunha numa janela de cinco e 21 dias pós-sintomas iniciais para sua detecção, respectivamente. Após esse período, é comum haver uma limpeza do vírus nos fluidos corporais, mesmo com a permanência dos sintomas clínicos. Na reanálise dos 57 casos indeterminados para Chicungunha sob PCR em Tempo Real, capaz de amplificar uma região de 107 pares de bases de genoma do gene NS1, específico do Mayaro, detectaram-se três casos retrospectivos de diagnóstico para esse vírus, endêmico da Amazônia. O PCR em Tempo Real é uma versão aperfeiçoada da PCR (Reação em Cadeia da Polimerase, em português). Seu princípio se embasa na duplicação de cadeias de DNA in vitro que pode ser reproduzida diversas vezes, originando quantidade de DNA suficiente para realizar várias análises. Com a detecção do Mayaro nas três amostras, os cientistas comprovaram, portanto, que os vírus do Mayaro e da Chicungunha já circulam juntos no estado do Rio de Janeiro. Em diferentes proporções, provocam o mesmo quadro clínico de febre alta e dores articulares crônicas. A descoberta pode causar um desafio diagnóstico ainda maior, porque existe uma grande reatividade sorológica cruzada entre os vírus Mayaro e o da Chicungunha. Os três casos possuem características epidêmicas comuns: todos são de Niterói,  provavelmente de pessoas infectadas que não viajaram para regiões endêmicas e identificados no ano de 2016. Os pesquisadores agora realizam estudos para confirmar e aprofundar as características virais, epidêmicas e sorológicas das infecções. Será necessário também realizar estudos de xenovigilância epidemiológica, coletando mosquitos de diferentes espécies (Haemagogus, Sabethes, Aedes e Culex) na região afetada (Niterói, São Gonçalo, Maricá etc.) a fim de avaliar a existência desse vírus amazônico de forma ecotrópica, na região do Grande Rio. A população deve seguir os mesmos procedimentos já adotados para combater os mosquitos da dengue, entre eles evitar água parada e usar repelentes. (UFRJ)   Leia mais sobre Ciência, Tecnologia e Inovação em BRASIL CTI.