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Morre no Rio a embaixatriz Hilda, viúva de José Guilherme Merquior

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Os saudosos Hilda e José Guilherme Merquior: eles estiveram juntos desde os 16 anos. - Fotos: álbum de família.

Faleceu nesta segunda-feira (3), no Rio de Janeiro, a embaixatriz Hilda Vieira de Castro Merquior, viúva do embaixador José Guilherme Merquior, um dos intelectuais mais completos que o Brasil já teve.

Hilda foi a primeira namorada de Merquior. Ficaram juntos desde os 16 anos até o falecimento dele, aos 49. Ela deixa a filha Julia e três netas.

O velório terá início às 10h desta terça (4), na capela 1 do cemitério de São João Batista, e o sepultamento está marcado para as 15h.

José Mário Pereira, editor da Topbooks, grande amigo do embaixador e de sua família, afirmou na noite desta segunda-feira que Hilda estudou desde a juventude com Merquior. “Foi amor à primeira vista”, disse. “Nos primeiros tempos da atividade intelectual de Merquior ela datilografava os seus textos, ele só escrevia a mão”.

Após a morte de Merquior e a perda do filho Pedro, num desastre de trânsito no México, Hilda foi diagnosticada com Alzheimer e problema renal. Falência renal foi a causa da sua morte.

Uma das fotos mais comoventes do casal foi feita por Pedro, meses antes da morte do embaixador. Nela, Merquior aparece visivelmente abatido pelo câncer que o levaria. Hilda olha para ele com semblante encorajador e ele a contempla.

José Guilherme Merquior, já abatido pela doença, e Hilda. A foto foi feita pelo filho Pedro, que faleceria depois do pai.

Hilda foi também tradutora. Como embaixatriz, teve atuação dinâmica em todos os postos do marido. Gostava de receber. Lia tudo que Merquior escrevia, e até o ajudava, eventualmente, em pesquisas.

“Hilda Merquior era uma mulher de grande vivacidade intelectual, divertida, e culta”, define José Mário Pereira. “Não se atemorizava com a imensa erudição do marido. Merquior a ouvia em tudo, e costumava chamá-la de Hildinha. Estudaram juntos na juventude e logo se apaixonaram. No período em que Merquior serviu na Casa Civil com Leitão de Abreu, Hilda chegou a trabalhar por um tempo na UnB. Era fluente em inglês, francês, italiano, espanhol e alemão. Tinha talento para decoração, apreciava música clássica e ópera, e logo se sentia em casa no país para onde o marido diplomata fora nomeado. Semanas atrás me despedi de d. Stella, a admirável mulher de Roberto Campos, e agora de Hilda, a companheira da vida inteira de Merquior.”

Sobre Merquior, o ex-ministro da Educação Eduardo Portella definiu o embaixador como “a mais fascinante máquina de pensar do Brasil pós-modernista – irreverente, agudo, sábio”, ao passo que o antropólogo Claude Lévi-Strauss o definiu como “um dos espíritos mais vivos e mais bem informados de nosso tempo”.

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