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Greve em Alagoas

Jornalistas paralisam afiliadas de redes de TV contra redução do piso em 40%

Proposta de redução de piso ocorre após demissões sem pagamento de direitos

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Grevistas diante da TV Gazeta, afiliada à Globo. Foto Divulgação

Com adesão de mais de 90% da categoria e apoio massivo de personalidades, políticos e entidades da sociedade civil, jornalistas alagoanos promovem uma greve que atinge a produção de notícias nas principais empresas de comunicação de Alagoas, desde as primeiras horas da madrugada desta terça-feira (25). A mobilização repudia a proposta das empresas de reduzir em 40% o piso salarial dos jornalistas – de R$ 3.565,27 para R$ 2.150,00 –  forçou a TV Gazeta de Alagoas, afiliada à Globo, a exibir o telejornal Bom Dia Alagoas gravado, como se fosse ao vivo, reprisando notícias da semana passada.

A paralisação que também atinge sites de notícias e jornais alagoanos levou o tema ao topo do trending topics do Twitter, marcado com a hash tag #quempagafazaovivo entre os assuntos do momento no Brasil. E também atinge a TV Pajuçara, afiliada à Record, e a TV Ponta Verde, afiliada ao SBT. Profissionais de fora do quadro das empresas foram convocados para tentar produzir matérias para serem exibidas.

O movimento denuncia a desvalorização dos profissionais de imprensa como contradição ao momento de combate à proliferação das fake news e da necessidade de fortalecimento do Jornalismo. E é resultado da proposta feita pelas empresas ainda em abril, quando o Sindicato dos Jornalistas de Alagoas (Sindjornal), foi surpreendido na mesa de negociações com a proposta considerada um ataque aos direitos dos trabalhadores.

Para os grevistas, a proposta é indecente, porque muitos jornalistas demitidos desde o ano passado não tiveram seus direitos pagos pelas empresas e a medida deve resultar em nova leva de demissões em massa, para a recontratação com economia de quase a metade dos custos para a produção de notícias. Além disso, a ausência de planos de progressão salarial dentro das empresas transforma o piso em teto salarial, fazendo diversos profissionais ingressar e se aposentar recebendo um piso salarial durante toda a carreira, apesar de prêmios e de dedicação exclusiva.

A crise econômica atinge o setor da comunicação de todo o Brasil, com fechamento de grandes jornais e revistas impressos e a redução para 10% das tiragens. Mas os jornalistas alagoanos citam como peculiaridade na realidade do estado é a histórica negação de direitos aos trabalhadores que não recebem horas extras há pelo menos quatro anos, sendo obrigar a cumprir cargas extras no expediente.

O Diário do Poder não obteve respostas aos questionamentos enviados sobre o posicionamento das empresas diante da greve.

Protesto de grevistas diante da TV Pajuçara, afiliada à Record. Foto: Divulgação

Apoio nacional

A greve conta com o apoio de quase a totalidade da classe política alagoana, movimentos sociais, e entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil, Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e outras entidades de classe. Algumas personalidades políticas de projeção nacional também apoiaram a causa, a exemplo de Guilherme Boulos, candidato a presidente da República pelo PSOL em 2018, do senador Rodrigo Cunha (PSDB-AL) e do próprio governador de Alagoas, Renan Filho (MDB).

A greve tem como foco as três emissoras de televisão alagoanas que lideraram a audiência local e são autoras da proposta de redução salarial rejeitada pelos jornalistas em todas as assembleias realizadas desde o início da negociação: a TV Gazeta (Globo), da família do senador Fernando Collor (Pros-AL); a TV Pajuçara (Record), do empresário dono da Sococo, Emerson Tenório, e de parentes do prefeito de Maceió (AL), Rui Palmeira (PSDB); e a TV Ponta Verde (SBT), do Opinião Sistema de Comunicação e do grupo do plano de saúde Hap Vida.

A mobilização realiza desde a madrugada piquetes diante das três empresas. E o Tribunal Regional do Trabalho da 19ª Região rejeitou pedido de liminar da TV Ponta Verde para que fossem garantidos 80% dos serviços da emissora.

Assessorias de imprensa do Ministério Público Estadual de Alagoas e do Tribunal de Justiça de Alagoas também decidiram parar em solidariedade aos jornalistas grevistas, com apoio do procurador-geral de Justiça Alfredo Gaspar de Mendonça e do presidente do TJAL Tutmés Airan.