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FALHA EM ABASTECIMENTO

Índios denunciam água contaminada e ameaça à saúde de aldeia alagoana

Comitê do Velho Chico vê água 'imprestável' em aldeia alagoana

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A comunidade indígena Kariri-Xocó, em Porto Real do Colégio (AL), denunciaram que a Estação de Tratamento de Água (ETA) que abastece os índios não possui isolamento adequado, permite a entrada de animais e coloca em risco toda a aldeia. Além da falta de insumos e manutenção adequada para o tratamento da água, a vulnerabilidade do local faz com que fezes sejam facilmente encontradas. E expõe os índios a doenças relacionadas ao consumo de água contaminada, como esquistossomose e outras transmitidas por bactérias e protozoários.

O problema foi denunciado ao o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF) e ao representante da ONG Amigos do Velho Chico, Antenor Néris. E acontece na captação de água para a aldeia, cujo ponto fica numa região, atualmente, pantanosa, devido à baixa vazão do Rio São Francisco.

Bombas que levam água para a comunidade dividem o ambiente com animais. Distante apenas 600 metros está um outro ponto onde se retira água para o abastecimento do município de Porto Real do Colégio. Lá, o líquido é de melhor qualidade, pois é água corrente e o Velho Chico oferta o produto em quantidade ainda considerada boa.

O cacique José Cícero Queiroz Suíra tenta mobilizar diversos entes para solucionar o problema.

“Inicialmente, recorremos à Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), que apontou como solução emergencial uma dragagem na mesma área em que se retira água. Só que isso é um paliativo. O rio está num nível muito baixo. Esse trabalho de dragagem será suficiente por dois ou três meses apenas, não mais que isso”, explica Cícero Suíra. A Sesai é subordinada ao Ministério da Saúde.

‘ÁGUA É IMPRESTÁVEL’

Baixa vazão tornou área de captação pantanosaO presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF), Anivaldo Miranda, colocou a estrutura do colegiado à disposição, enviando o analista ambiental Manoel Vieira para verificar a situação real.

“Trata-se de um problema de simples solução e essa comunidade busca o apoio do Comitê, que não irá se negar. A verdade é que a água servida àquela comunidade é imprestável e a solução é algo simples, que fica em torno de R$ 100 mil para a mudança do ponto de captação”, acrescentou o presidente do CBHSF, reafirmando a disponibilidade em resolver o problema.

Uma representação indígena participou da videoconferência promovida pela Agência Nacional de Águas (ANA) na segunda-feira (18) e expôs o problema. Imediatamente, a equipe técnica do Ministério da Integração se dispôs a mobilizar diversos entes capazes de se chegar a uma solução. Depois da reunião promovida pela agência federal, a equipe da Sesai se comprometeu a repassar com a maior brevidade possível o diagnóstico que está sendo elaborado por seus técnicos locais.

FALTAM CONTROLE E VAZÃO

O agente indígena de saneamento e irmão do cacique, Francisco Suíra, concorda com a posição de Cícero. Responsável pelo trabalho da ETA na comunidade, Francisco revela que buscou a Sesai de maneira insistente para alertar a dificuldade de realizar o trabalho no tratamento da água. Segundo ele, há apenas o fornecimento de pastilhas sólidas de cloro, que precisam ser quebradas para colocação na água.

“Não se faz uma proporção da quantidade do produto em relação ao volume de água. Além disso, o filtro não tem a manutenção rotineira correta e tudo isso interfere no líquido que chega às pessoas. Temos, atualmente, casos de pessoas hospitalizadas devido à água que consome”, aponta ele.

O pajé Carlos Alberto Suíra lembra que os problemas se agravaram a partir do último mês de maio, porque o nível do Rio São Francisco, que banha o município de Porto Real do Colégio, baixou muito interferindo diretamente na qualidade do líquido, inclusive com a enorme proliferação de algas, fator que indica contaminação. De acordo com ele, a calha do rio está distante um quilômetro da aldeia, motivo pelo qual ele não vê dificuldade para o problema ser resolvido rapidamente pelos órgãos competentes.

O engenheiro da Sesai, Márcio Martins, se reuniu com alguns representantes da comunidade indígena na sexta-feira (15 de dezembro). Na oportunidade, ele reforçou que a abertura do canal é uma proposta viável para uma solução de curto prazo. “Caso a tribo aceite, poderemos solicitar o apoio da Funai e, como precisa tramitar a partir da sede nacional, em Brasília, num prazo máximo de 15 dias poderemos ter essa intervenção”, comentou. Mas não é isso que a comunidade quer. O caminho para atender aos índios da tribo Kariri-Xocó é a mudança do ponto de captação de água.