CPMI do 8 de Janeiro

General diz que ex-comandante do Exército barrou ação da PM em QG

Gustavo Henrique Dutra diz a CPMI que operação para desmobilizar acampamento bolsonarista foi vetada pelo general Freire Gomes

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Ex-comandante do Comando Militar do Planalto, general Gustavo Henrique Dutra, depôs na CPMI do 8 de Janeiro. Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

Em depoimento à CPMI do 8 de Janeiro, nesta quinta-feira (14), o ex-comandante do Comando Militar do Planalto (CMP), general Gustavo Henrique Dutra, disse que o então comandante do Exército, general Marco Antônio Freire Gomes, determinou o cancelamento de uma operação da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) para desmobilizar o acampamento erguido por bolsonaristas em frente ao Quartel General do Exército, em Brasília, ainda em 29 de dezembro do ano passado.

O relato foi dado em resposta à relatora da CPMI, senadora Eliziane Gama (PSD-MA), que acusou o depoente de ter suspendido três operações da PMDF nos dias 7, 13 e 29 de dezembro do ano passado, com base em depoimentos e documentos recebidos pela CPMI.

O general Dutra, negou ter ocorrido “inércia ou complacência dos militares”, bem como ter cedido a pressões para manter o acampamento ou atuado contra sua desmobilização. E narrou telefonema que recebeu do general Freire Gomes, com ordem para que apenas militares do Exército acompanhassem servidores do governo do DF, em operação para a retirada dos manifestantes. O que acabou frustrando a desocupação e resultando na remoção apenas de barracas desocupadas.

“Recebi uma ligação do comandante do Exército. Ele viu que o clima na Praça dos Cristais havia ficado mais tenso e determinou que a operação fosse cancelada com a presença da PMDF e continuasse somente com o Exército. No dia 29, não poderíamos ter um enfrentamento. Estávamos nas vésperas da posse. Um enfrentamento poderia atrapalhar a normalidade do evento que aconteceria logo depois. O Exército é baseado na hierarquia e na disciplina. Se eu recebesse ordem do comandante [para a retirada do acampamento], com certeza cumpriria”, afirmou o general Dutra.

‘Derramamento de sangue evitado’

O oficial militar ressaltou ainda que, apenas na noite do dia 8 de janeiro, após os ataques à Praça dos Três Poderes, o Supremo Tribunal Federal (STF) ordenou a retirada do acampamento e a prisão dos golpistas. Ordem cumprida apenas no dia seguinte, segundo o general com aval do presidente Lula (PT), por “riscos de derramamento de sangue”, em eventual cumprimento da ordem judicial naquela noite.

“Fui colocado em contato direto com o senhor presidente da República. Ao tomar conhecimento de todas as variáveis que poderiam agravar o risco da operação, ele concordou que a mesma deveria ser executada com o planejamento adequado. A decisão do STF determinou a desocupação e a dissolução total dos acampamentos no prazo de 24 horas. Em nenhum momento houve obstrução ao cumprimento da ordem judicial. O CMP contribuiu decisivamente para que não houvesse danos colaterais ou risco à integridade física ou à vida das pessoas”, disse o general Dutra.

Aula de bomba e crimes no acampamento 

A relatora da CPMI questionou se o general Dutra recebeu alertas do Serviço de Inteligência do Exército (SIE) sobre a presença de militares da reserva, identificados como ‘Boinas Vermelhas’ ou ‘Paraquedistas’, andando armados no acampamento, cobrando por serviços e se oferecendo para fabricar e instalar um explosivo em um caminhão tanque em dezembro.

Dutra negou ter recebido informações do SIE, ao afirma que não cabia ao Exército fazer qualquer juízo de valor quanto ao teor das reivindicações ou o controle de legalidade das pautas reivindicadas, sob pena de caracterizar eventual abuso de autoridade. (Com informações da Agência Senado)

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