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Pandemia eleitoral

Campo Grande tem campanha antecipada para Doria, exaltando vacina em outdoors

Empresa que fez outdoors refuta uso de verba pública e diz que espera poder exaltar Bolsonaro

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Outdoor exalta atuação de João Doria em prol da vacinação contra a covid-19 em Campo Grande (MS). Foto: Reprodução Instagram

Enquanto duela com o presidente Jair Bolsonaro pelo protagonismo da campanha de vacinação contra a covid-19 no Brasil, o governador de São Paulo, João Doria Jr. (PSDB), é beneficiado por uma campanha midiática que promove sua imagem pelas ruas de Campo Grande (MS), e antecipa a provável disputa eleitoral pela Presidência da República, em 2022. Outdoors espalhados pela capital do estado do Mato Grosso do Sul exaltam a foto de Doria, sob o argumento de incentivo à vacinação contra o coronavírus.

Iniciada em dezembro com mais de uma dezena de outdoors na capital do estado que faz limite com São Paulo, a campanha tem uma nova versão que exalta a atuação de Doria na busca pela liberação da CoronaVac e agilização da vacinação no Brasil. Em um vídeo que viralizou na internet, a apoiadora de Bolsonaro, Juliana Gaioso (PSL), questiona se o dinheiro de impostos dos paulistanos está sendo distribuído Brasil afora para financiar a campanha que pode ser configurada como propaganda eleitoral ilegal.

O governo de João Doria nega ter financiado a ação midiática: “É falso que o Governo de São Paulo tenha contratado outdoor no Mato Grosso do Sul”, afirmou em suas redes sociais. E o PSDB de São Paulo disse em nota ao Diário do Poder que “não tem nenhuma relação com a ação realizada em Campo Grande e desconhece seus autores”.

A nova versão da campanha publicitária expõe o seguinte texto, ao lado da imagem de Dória comemorando a liberação da CoronaVac pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), no último dia 17: “Parabéns, João Doria, V de vitória, de vacina, de verdade”. Enquanto a antiga propaganda exibia Doria segurando a CoronaVac com a frase: “Vacina para todos”.

Veja o vídeo em que a ex-assessora da senadora Soraya Thronicke (PSL-MS) expõe o outdoor:

‘Sem verba pública’

Ambas as versões da campanha publicitária foram promovidas pela Top Mídia MS, cujo representante Vinícius Squinelo nega que a empresa tenha recebido verba pública pela propaganda nos outdoors. Ele confirmou ao Diário do Poder que vai continuar “enaltecendo quem luta pela vacinação do povo brasileiro, de forma gratuita e universal”.

“Nenhum recurso público ou privado, seja do governador João Doria ou de qualquer outro político. Nós usamos locais que nós pagamos, nossos próprios profissionais e a impressão foi feita com nosso recurso. Na campanha passada, enaltecemos a vacinação em si. Nesta, a pessoa que, dentro do nosso prisma político nacional, mais batalhou pela vacina para os brasileiros. E ressalto, se no futuro outro nome aparecer defendendo a imunização para todos de forma mais rápida possível, também faremos uma campanha idêntica. Esperamos, inclusive que o presidente Jair Bolsonaro assuma tal responsabilidade e lute por isso, teremos prazer de enaltecê-lo em nossos outdoors”, disse Squinelo, ao Diário do Poder.

Questionado se a empresa tem em seu quadro societário políticos ou ocupantes de cargos públicos, Squinelo, que é jornalista, respondeu negativamente, ressaltando que o sócio proprietário da empresa, Marcos César Américo dos Reis, é empresário que começou no setor de varejo de Campo Grande e hoje atua no segmento publicitário/jornalístico. “Nenhum têm qualquer filiação partidária ou cargo público ou semelhante”, respondeu.

Sobre relações contratuais com governos, o representante da Top Mídia MS afirma que nunca prestou serviços ao governo de São Paulo. E relata já ter vendido espaço de publicidade em outdoors ao governo de Mato Grosso do Sul, mas há anos, não apenas para a atual gestão do partidário de Doria, o governador tucano Reinaldo Azambuja, aliado de Jair Bolsonaro.

Poderia ser pró-Bolsonaro

O representante da empresa que espalhou outdoors disse não temer que esta iniciativa se configure campanha eleitoral antecipada a favor de Doria, vedada pela legislação eleitoral.

“Nosso objetivo é enaltecer quem defende a imunização e quem luta contra a covid-19 no Brasil, além de defender os profissionais envolvidos nesta luta. João Doria sequer é político em nosso Estado. Obviamente, ele é um pré-candidato à disputa eleitoral nacional em 2022, mas nosso objetivo não é, de nenhuma maneira, fazer pré-campanha para o tucano, e sim defender as medidas e as pessoas que batalham contra essa pandemia no País. Esperamos, inclusive que o presidente Jair Bolsonaro assuma tal responsabilidade e lute por isso, teremos prazer de enaltecê-lo em nossos outdoors”, disse Vinícius Squinelo, da Top Mídia MS.

Pode haver investigação

A reportagem questionou ao especialista em Direito Eleitoral e professor universitário Gustavo Ferreira se tal propaganda configurar campanha eleitoral antecipada, proibida por lei. A resposta foi de que, em princípio, não há ilícito eleitoral, pela ausência do pedido expresso por voto. Mas o jurista ponderou que pode haver investigação sobre os custos da campanha publicitária e a participação da empresa nesta iniciativa.

“Tivemos vários [casos de publicidade] fora do período eleitoral. Não há nada proibindo, se não tem pedido expresso de voto para o devido fim de ser considerada propaganda antecipada. Apenas um detalhe: Pode haver investigação para apurar eventual uso de recursos fora do período eleitoral e/ou o eventual uso de empresa privada em prol de candidatura”, respondeu Gustavo Ferreira, ao Diário do Poder.

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