AMARELA E VALIOSA

Elton Alisson

Curcumina é usada como corante de alimentos
22/04/2019

Estudo destaca ação da curcumina no combate ao câncer de estômago

AMARELA E VALIOSA

Estudo destaca ação da curcumina no combate ao câncer de estômago

Curcumina é usada como corante de alimentos

Usada como corante de alimentos, a curcumina – substância encontrada no pó extraído da raiz da cúrcuma ou açafrão-da-índia (Curcuma longa) – pode ajudar a prevenir ou combater o câncer de estômago. Um estudo feito por pesquisadores das universidades Federal de São Paulo (Unifesp) e do Pará (UFPA) apontou possíveis efeitos terapêuticos desse pigmento e de outros compostos bioativos encontrados em alimentos nesse tipo de tumor – o terceiro mais frequente em homens e o quinto entre as mulheres no Brasil. Resultado de um Projeto Temático apoiado pela FAPESP, o estudo foi publicado na revista Epigenomics. “Fizemos uma vasta revisão na literatura científica de todos os nutrientes ou compostos bioativos com potencial de prevenir ou tratar o câncer gástrico e identificamos que a curcumina é um deles”, disse Danielle Queiroz Calcagno, professora da UFPA e primeira autora do estudo, à Agência FAPESP. De acordo com a pesquisadora, que fez pós-doutorado na Unifesp com bolsa da FAPESP, compostos como colecalciferol (uma forma da vitamina D), resveratrol (um polifenol) e quercetina (um flavonoide) podem proteger contra o câncer de estômago por serem reguladores naturais da atividade de proteínas conhecidas como histonas. Essas proteínas formam um complexo, chamado nucleossomo, que funciona como uma matriz em torno da qual o DNA se enrola como uma linha no carretel. Esse núcleo proteico permite compactar o DNA e acomodá-lo no interior das células, empacotado por uma estrutura chamada cromatina. Uma modificação química na cadeia de aminoácidos das histonas após sua tradução, como a adição de um grupo acetila (acetilação) ou de um grupo metil (metilação), pode afetar a compactação do DNA pela cromatina e, consequentemente, a expressão dos genes. “Se as histonas estiverem acetiladas, por exemplo, a cromatina estará menos condensada e um determinado gene de uma região do segmento de DNA no interior dela estará disponível para ser expresso. Se as histonas não estiverem acetiladas, por outro lado, a cromatina estará mais condensada e o gene não será expresso”, explicou Calcagno. Estudos feitos nos últimos anos mostraram que modificações de histonas após sua tradução provocam alterações na expressão de genes sem causar mudanças na sequência de DNA. São as chamadas variações epigenéticas, que influenciam o desenvolvimento de diferentes tipos de câncer. A fim de avaliar se essa hipótese também se aplicava ao câncer gástrico, pesquisadores de diferentes grupos, um deles coordenado pela professora Marília de Arruda Cardoso Smith na Unifesp, fizeram estudos do padrão de acetilação de histonas em amostras de células do estômago tanto de pessoas saudáveis como de pacientes diagnosticados com a doença. As análises revelaram que as células dos pacientes com câncer gástrico apresentavam alterações no padrão de expressão das histonas acetiltransferases (HATs, na sigla em inglês) e desacetilases (HDACs, também na sigla em inglês). Dessa forma, essas alterações conferiam marcas epigenéticas típicas desse tumor. Como estudos recentes também indicavam a existência de nutrientes e compostos bioativos capazes de regular a atividade de HATs e HDACs, os pesquisadores da Unifesp e da UFPA fizeram um levantamento de quais dessas substâncias influenciam a acetilação de histonas para identificar quais seriam capazes de ajudar na prevenção e no tratamento do câncer gástrico. Além da curcumina, outros compostos com papel relevante na modulação de atividade das histonas revelados pelo estudo foram o colecalciferol, o resveratrol (polifenol encontrado principalmente nas sementes de uvas e no vinho tinto) e a quercetina (encontrada em grandes concentrações em maçãs, brócolis e cebolas). Completam a lista o garcinol, isolado de cascas de kokum (Garcinia indica), e o butirato de sódio, gerado pela fermentação de fibras alimentares por microrganismos da flora intestinal. “Esses compostos podem favorecer a ativação ou a repressão de genes envolvidos no desenvolvimento do câncer de estômago por meio da acetilação ou desacetilação de histonas”, afirmou Calcagno. A curcumina, por exemplo, influencia modificações das histonas ao inibir a atividade das enzimas HDACs e HATs para suprimir a proliferação e induzir a apoptose – a morte programada – de células cancerígenas. Já o garcinol, que possui estrutura química semelhante à da curcumina, inibe a atividade das histonas HATs. “Pretendemos, agora, esclarecer os efeitos anticâncer e epigenético de compostos bioativos da flora amazônica, presentes, por exemplo, no açaí [Euterpe oleracea] e no murici [Byrsonima crassifolia], para que também possam ser usados, no futuro, na proteção contra o câncer gástrico”, disse Calcagno. O estudo Role of histone acetylation in gastric cancer: implications of dietetic compounds and clinical perspectives (DOI: 10.2217/epi-2018-0081), de Danielle Q. Calcagno, Fernanda Wisnieski, Elizangela R. da Silva Mota, Stefanie B. Maia de Sousa, Jéssica M. Costa da Silva, Mariana F. Leal, Carolina O. Gigek, Leonardo C. Santos, Lucas T. Rasmussen, Paulo P. Assumpção, Rommel R. Burbano e Marília A. C. Smith, pode ser lido na revista Epigenomics em https://www.futuremedicine.com/doi/abs/10.2217/epi-2018-0081. (Agência FAPESP)   Leia mais sobre Ciência, Tecnologia e Inovação em BRASIL CTI.
22/04/2019

Pesquisadora do MS estuda sentimento de raiva na infância e na adolescência

ESQUENTADINHOS?

Pesquisadora do MS estuda sentimento de raiva na infância e na adolescência

A raiva é uma emoção que aparece diante de situações de injustiça

Esquentadinho, representado por uma animação vermelha, quase que pegando fogo, a emoção “O Raiva” no filme Divertida Mente bem expressa como ficam as pessoas quando se veem diante de situações de injustiça, indignação e/ou impedimento. Presente em todos os indivíduos, a raiva é uma das cinco emoções que movem o ser humano, mas na maioria das vezes não é bem compreendida e pouco se sabe qual a melhor maneira de manejá-la, principalmente em crianças e adolescentes. Essa emoção ímpar foi investigada e trabalhada pela professora e pesquisadora da Faalc Aline Henrique Reis em Doutorado e em pesquisas sobre os fatores associados à desregulação da raiva na infância e na adolescência. A raiva é uma emoção que aparece diante de situações de injustiça. “Eu me sinto injustiçado, quando eu tenho um obstáculo diante de um objetivo. Por exemplo, não ter permissão do cuidador para poder ia festa de um amigo. Ao mesmo tempo, ela nos dá energia para buscar os nossos objetivos, como quando compramos um produto com defeito e vamos atrás para exigir os nossos direitos de consegui-lo em perfeitas condições”, explica a professora Aline. Só que as pessoas não sabem lidar com a raiva, assegura a pesquisadora. “Nas pesquisas realizadas percebemos que os cuidadores (pais, avós, tios, e outros responsáveis), em relação a raiva, não sabem bem como reagir. Acabam punindo, batendo, gritando, brigando ou até ignorando. Então, geralmente, a raiva de um gera raiva no outro. E naturalmente as pessoas não aprendem a lidar com essa emoção e não sabem quais estratégias de regulação emocional utilizar”, expõe. Estratégias E o que é uma estratégia de regulação emocional? “Se estou sentindo raiva, eu tenho que identificar a minha emoção, identificar a intensidade, entender o que gerou essa emoção e escolher uma estratégia de regulação: fazer uma respiração, avaliar os meus pensamentos”, ensina. E que seria uma reação ideal diante de qualquer emoção: a validação. Como validar as emoções é algo que pais ou outros cuidadores devem ensinar às crianças e adolescentes. “Primeiro, o filho aprende vendo os exemplos dos pais e depois pela maneira como eles lidam com ele. Se os pais estão tristes, chateados e com raiva e decidem beber, mexer no celular, ver TV, o filho tende a fazer igual. Depois, quando o filho pergunta ao pai se está bem, e ele diz que não é nada, ele aprende que as emoções não são bem-vindas, que precisam ser abafadas”. Da mesma forma, minimizar a emoção de quem está com raiva, com um “larga de bobagem, isso não é nada”, não ajuda solucionar o ímpeto da emoção. “Perder um brinquedo, pode não ter grande valor econômico, mas tem o valor afetivo. Se eu digo que isso não é nada, estou minimizando a emoção da criança. O processo ideal é validar, perguntar a ela o que está sentindo, porque está sentindo dessa maneira e deixar claro que ela pode contar com o cuidador”, aponta Aline. A validação seria a primeira estratégia mais adequada. Num segundo momento, parte-se para a resolução de problemas, identificando o que pode ser feito diante da situação que gerou essa emoção de raiva. “Essa é uma estratégia bem bacana porque a criança vai aprender na sua vida adulta como lidar com as situações que geram a emoção. Mas se for direto para as soluções de problemas, pula-se essa etapa de entender que as emoções fazem parte da vida e a criança passa a ver as emoções como algo não muito bom”, explica. A teoria diz que as emoções são processos que envolvem a fisiologia do corpo, têm duração breve, a não ser que se fique pensando sobre, e gera reações e pensamentos congruentes. A emoção, como está associada a preservação da espécie, tem de gerar uma reação mais rápida, um processamento mais automático. A raiva, dentro dessas emoções básicas, mobiliza, gera mais energia nos punhos, nas pernas, para lutar pelos direitos, segundo a pesquisadora. É uma emoção que todos sentem, mas é mal vista. “Qual seria o outro extremo: uma criança que sente raiva com muita frequência, tem o comportamento associado ao agressivo. A pessoa tem o direito de sentir raiva, mas não tem o direito de machucar, agredir ou quebrar. Isso é o que tem de ser ensinado”, coloca Aline Na atualidade, afirma a pesquisadora, as pessoas têm uma ideia disseminada de que as emoções não devem ser sentidas. Retira-se o foco da emoção e o coloca em outras coisas como comida, álcool, droga, eletrônicos, jogos, celular, tevê, entre outros. “A raiva vem muito da frustração também. Os cuidadores da atualidade vem de uma geração que provavelmente passou por algumas privações, dificuldades financeiras na infância. Ambos os pais saem para o mercado de trabalho, tem menos tempo em casa e uma dificuldade grande de ver o filho sofrer”, aponta. Mas são os cuidadores na primeira (até três anos), segunda (três a seis anos) e terceira infância (seis a doze anos) as pessoas que mais devem frustrar os filhos na fase do desenvolvimento, principalmente para ensiná-los a lidar com a frustração. “A criança vai externalizar a raiva e o cuidador tem de acolher dizendo: eu entendo, sinto muito, mas não! Infelizmente, muitos não conseguem tolerar gerar tristeza, frustração, raiva nos filhos”. O processo é o mesmo em qualquer idade. Para os pequenos, os pais devem assinalar ao filho que ele está sentindo uma emoção, nomear essa emoção, indicar o que provavelmente gerou essa emoção e fazer alguma coisa em relação a isso. Quando a criança cresce, questiona-se o que ela está sentindo e o que pode ser feito para lidar com isso, apresentando posicionamentos como “E se fizer isso, o que vai acontecer?”. Com o passar do tempo, busca-se da criança ou do adolescente a possibilidade de solução, ao mesmo tempo que se acolhe, demonstra presença. “Precisamos por o cérebro dele para funcionar. À medida em que ele pensa em estratégia de solução, debate-se com ele sobre as possibilidades que devem ser aplicadas e acompanhadas pelos pais/cuidadores”. O problema é a falta de conversa, assegura Aline. “Há uma preciosa correlação entre se conversar sobre as emoções e ter boas estratégias de regulação emocional, mas isso pouco acontece”. Pesquisas Em Doutorado, Aline Reis trabalhou com o manejo da raiva, propondo um grupo de intervenção com crianças de escola pública para ensinar estratégias de regulação emocional, a partir da identificação da emoção. Participaram crianças com nível de raiva bem exacerbado e estratégia de comportamento agressivo. Foram utilizadas técnicas de regulação da raiva, mas os problemas estavam exacerbados diante das situações de negligência. “Os direitos básicos das crianças não estavam sendo atendidos, então o problema delas não era “estou com raiva e não sei o que fazer; era eu tenho direitos que não estão sendo atendidos e isso gera uma raiva muito grande e não sei o que fazer com isso”. Essas crianças tinham relação ruim com seus cuidadores. No geral, eram maltratadas, punidas e por isso apresentavam uma raiva mais que justificada, porque sofriam negligencia, ameaças, abuso físico e/ou psicológico. A professora Aline também orientou pesquisas na segunda e terceira infância e com adolescentes, para verificar como eles lidavam com a raiva e como as mães a percebiam em seus filhos. A pesquisa mostrou que na segunda infância, como as crianças são menores, as mães tendem a validar mais e usar técnicas de distração, o que não tem grande resultado com os maiores. “Com criança pequena, os cuidadores conseguem acolher mais, colocar no colo, dar beijo, dar carinhos. À medida que a criança vai crescendo, isso diminui. Na terceira infância praticamente nenhuma mãe revela a validação”, aponta. Os adolescentes foram questionados sobre o sentir raiva e com que frequência isso aconteceria. A pesquisa mostrou que as mães, quando perguntadas sobre essa emoção do filho, identificaram muito menos a ocorrência de raiva, do que os jovens manifestaram. “Elas não se davam conta, ou porque passam pouco tempo juntos, ou porque o adolescente se isolava ou não externalizava”. “Eles não têm estratégia de regulação emocional, ou seja, ventilam, põem para fora batendo porta, gritando, xingando, ou se isolam, vão para o quarto, para o celular. Raramente buscam ajuda de adulto ou colegas da mesma idade. Vemos que as mães pouco falaram de validar, de lidar com essas emoções”. Diante dessa realidade, uma grande preocupação atual dos profissionais da área é o aumento de ações como a automutilação – que é uma estratégia de regulação atualmente utilizada por crianças e, principalmente, adolescentes, em especial disseminadas na web. “Quando a criança/adolescente se corta, seu cérebro vai liberar endorfina para de certa maneira aplacar a dor física e emocional. O organismo se organiza para lidar com essa dor, gera um alivio, e ele acaba entrando num círculo vicioso”, explica Aline. A mutilação está relacionada a situação de angustia, de não saber como resolver os problemas. Outra estratégia frequentemente usada diante de situações de angústia na contemporaneidade são as tentativas de suicídio, cada vez mais frequentes. O adolescente tem como características dessa fase do desenvolvimento cerebral a impulsividade e a busca de estimulação imediata. “Então se ele tem um meio letal, numa situação de impulsividade, que é característico da adolescência, mesmo não querendo morrer, acaba por tentar o suicídio. Acompanhamos o aumento dos índices de automutilação, tentativa de suicídio e efetivação do suicídio. Isso é ainda mais preocupante quando vemos cuidadores que minimizam essa dor, desqualificam. O adolescente acaba não tendo o suporte para conversar num momento de fragilidade”, completa. A estratégia final para a intervenção para a automutilação é também a regulação emocional. Num primeiro momento o psicólogo trabalha como pode lidar com as emoções intensas vivenciadas, o que fazer ao invés de se cortar, até ajudá-lo a sanar o problema que leva à automutilação. As mulheres tentam mais o suicídio, os homens efetivam mais porque usam meios mais letais, como arma de fogo. Tudo ganha proporções maiores, segundo a especialista, diante de questões de bulliyng e aumento da intolerância, seja religiosa, de cor, sexualidade ou outras que são recorrentes na atualidade. Escolas particulares, segundo a professora, já trabalham programas, com treinamento de professores, encontros esporádicos com os pais, atividades de internet para fazer em casa e desenvolver na escola, dentro de um planejamento anual com vistas a  trabalhar a educação socioemocional. Já as escolas públicas têm prazo até 2020 para inserir essas habilidades socioemocionais dentro do currículo. “Só que não há psicólogos nas escolas e os professores não tem uma formação para trabalhar esse tipo de interação. A formação do professor tem de perpassar tanto o treinamento de como você pode aproveitar a situação que acontece naquele momento, e fazer a regulação, até o manejo do ocorrido, mas para isso é preciso ter preparo”. Para um programa como esse funcionar, afirma Aline, é preciso envolver alunos, professores e família. Não há resultados em se trabalhar com a criança/adolescente, se os cuidadores apenas sabem punir ou se justificar. “Muitas vezes, quando crianças e adolescentes externalizam a emoção, os cuidadores não as entendem. Os pais querem muito mais se defender do que compreender e abrigar. A ideia não é se justificar, mas avaliar o que pode ser melhorado para acolher a demanda da criança ou do adolescente”, diz. (UFMS)   Leia mais sobre Ciência, Tecnologia e Inovação em BRASIL CTI.
22/04/2019

Estudante desenvolve novas formas de remover contaminação da água

PLANTAS PURIFICADORAS

Estudante desenvolve novas formas de remover contaminação da água

Processo que utiliza plantas briófitas como agentes de purificação teve pedido de patente depositado

Uma das principais fontes de poluição da água com metais pesados é o descarte de resíduos industriais. Certos processos de produção, como os das indústrias metalúrgicas, de tintas, de cloro e de plástico, utilizam esses metais que, quando descartados irregularmente nos esgotos, degradam os cursos de água. Existem diversos tipos de elementos tóxicos que já são frequentemente encontrados nas águas. Alguns dos principais são mercúrio, chumbo, cádmio, arsênico, bário, cobre, cromo e zinco. A incineração de lixo urbano também produz fumaças ricas em metais, principalmente mercúrio, chumbo e cádmio. Todos os metais resultantes desses processos podem ser dissolvidos pela água, causando danos à saúde de humanos e animais, dado o potencial tóxico destes elementos. Com isso em mente, a bióloga marinha Therrése Torres analisou o potencial de certas espécies de briófitas na remoção de metais e nutrientes contaminantes de águas naturais e residuais. A pesquisa foi realizada para seu trabalho de conclusão de curso em Biologia Marinha e Costeira, graduação oferecida, à época, em colaboração entre a UFRGS e a UERGS, e deu origem ao produto Bryopowder, que teve seu pedido de patente depositado em outubro do ano passado. As briófitas são plantas pequenas, geralmente com alguns poucos centímetros de altura, que vivem preferencialmente em locais úmidos e sombreados. Devido à sua estrutura, elas servem de reservatórios de água e nutrientes, fornecem abrigo à microfauna, funcionam como viveiros para outras plantas em processos de sucessão e regeneração e são utilizadas como adsorventes naturais para remover matéria tóxica das águas. Desde o início da sua graduação, Torres trabalhou em projetos sobre a suscetibilidade das águas durante os monitoramentos de lagoas costeiras, especialmente no que tange às concentrações de contaminantes, como os metais pesados e nutrientes. Ela começou, então, a buscar uma alternativa para esse impacto e, com o apoio de seus orientadores, estabeleceu a ideia de aplicar as briófitas como fitorremediadoras (um processo que utiliza as plantas como agentes de purificação de ambientes aquáticos ou terrestres) na tentativa de remover tais contaminantes. Os testes incluíram três espécies – Ricciocarpos natans Corda, Sphagnum perichaetialeHampe e Bryum muehlenbeckii Bruch & Schimp –, que foram cultivadas em aquários isoladamente e mantidas em temperatura ambiente e luz natural. Segundo Cacinele Rocha, química do Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos (Ceclimar) da UFRGS e coorientadora do trabalho, a escolha pela utilização das espécies de briófitas se deve ao fato de essas serem plantas com uma fácil adaptabilidade a vários tipos de ambientes, sem a presença de tecidos verdadeiros (aqueles que possuem células organizadas e diferenciadas que formam os órgãos das plantas), bastante resistentes às alterações ambientais, com relativa simplicidade estrutural e rápida taxa de multiplicação. Rocha explica que foi testado o uso dessas espécies sob a forma de biomassas secas e úmidas. Nesse experimento, as plantas foram expostas a diferentes soluções enriquecidas com elevadas concentrações de metais e nutrientes. Na sequência, os pesquisadores mensuraram as concentrações das substâncias. De acordo com Torres, a biomassa seca foi a que demonstrou melhor capacidade de absorção de resíduos, pois atingiu um percentual médio de remoção de mais de 90%, e a Sphagnum perichaetiale foi a espécie que apresentou melhor desempenho nos testes, com remoções de 99% para ferro e 98% para cromo. Em relação às vantagens do invento, Torres ressalta que, pelo fato de as briófitas serem plantas cosmopolitas, de tamanho reduzido, elevada tolerância às mudanças climáticas, rápida taxa reprodutiva e fácil cultivo, a produtividade final do produto é facilitada. A biomassa seca, por sua vez, é facilmente armazenada e transportada, apenas necessitando ser conservada em local fresco e seco. Além disso, trata-se de um produto natural, com baixo custo de produção e aplicação. O processo, contudo, ainda possui algumas limitações. Torres acredita que o principal desafio seria a necessidade de recolhimento das biomassas e a adequada destinação desses resíduos que são retirados da água com a presença dos contaminantes após o processo. O sucesso dos resultados da pesquisa possibilita que essas técnicas de remoção de metais das águas possam ser levadas à população por meio de uma futura aplicação industrial. ‘‘Pensamos em uma ideia de estabelecimento de uma patente que poderia ser utilizada tanto como um processo quanto como produtos para remediação e aplicação industrial’’, explica Torres. ‘‘A nossa ideia é utilizar esse produto como uma forma natural de absorção de metais contaminantes. Também poderia ser utilizado em projetos de purificação de lagoas, filtros de torneiras ou inclusive filtros de geladeira’’, complementa. A pesquisadora também ressaltou que tem planos para a continuidade desse projeto em futuros trabalhos de pós-graduação, nos quais procuraria, entre outras coisas, aumentar as possibilidades de aplicabilidade do produto. (UFRGS Ciência)   Leia mais sobre Ciência, Tecnologia e Inovação em BRASIL CTI.
22/04/2019

Método inovador recupera água de processo industrial poluente

INSPIRADO NA DESSALINIZAÇÃO

Método inovador recupera água de processo industrial poluente

Engenheira conseguiu reciclar água e matéria-prima utilizadas no processo de eletrodeposição, altamente poluente

A aparência prateada ou acobreada de objetos utilizados no nosso dia-a-dia, como bijuterias, torneiras e até mesmo peças de carros, é resultado de um processo largamente utilizado nas indústrias, a eletrodeposição. A técnica gera um resíduo altamente poluente, que deve ser tratado pela indústria antes de ser descartado. Além disso, espera-se que os produtos utilizados para fazer este tratamento não façam mal à saúde dos profissionais que trabalham diretamente na eletrodeposição industrial, nem sejam poluentes. Para enfrentar este desafio, a pesquisadora Tatiana Scarazzato dedicou seu trabalho de doutorado na Escola Politécnica (Poli) da USP ao desenvolvimento de uma tecnologia que recuperasse tanto a água quanto a matéria-prima utilizada na primeira etapa de um processo de galvanoplastia, no qual o metal pesado recuperado é o cobre. “A ideia era minimizar a questão do lançamento de efluentes no meio ambiente, e conseguimos reaproveitar todo o material”, explica. A pesquisa, reconhecida nacionalmente com o Prêmio Capes de Teses 2018, começou no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). “Eles estavam trabalhando na época com uma solução industrial que fosse menos tóxica, tanto para o meio ambiente quanto para os trabalhadores. Então, o foco era apresentar para a indústria uma solução que oferecesse menos riscos”. A técnica proposta por Tatiana Scarazzato utiliza a técnica de eletrodiálise, já utilizada para dessalinizar água em escala industrial e torna viável a substituição do material utilizado atualmente, poluente e prejudicial à saúde, o cianeto. Outro desafio enfrentado foi que no efluente industrial a ser tratado, havia outros compostos que não são comuns em águas para abastecimento da população. Método inovador recupera água de processo industrial poluente – Foto: Divulgação / Poli A mudança na forma de tratar os produtos no processo industrial proposta por Tatiana recupera o que foi descartado e também a água, para que não haja maior consumo por parte da indústria. A engenheira explica que, além do aspecto social e de usar uma matéria-prima menos poluente e menos tóxica, o reaproveitamento de água e matérias-primas diminui o custo de todo o processo para a indústria. A pesquisadora, que participou do “Programa Novos Talentos”, no IPT, conta que os estudos que originaram o processo criado por ela se iniciaram no seu mestrado, no qual ela estudou se era possível utilizar a técnica de eletrodiálise com esse efluente em específico. Com o sucesso obtido, ela começou a investigar de maneira mais profunda tanto a aplicação do processo quanto a parte científica, para explicar como o composto e a membrana fazem a interação. “Então, nós decidimos aprofundar tudo, porque já tínhamos visto que dava certo. Acho que como cientistas, a gente tem que fazer a parte científica, e como engenheiros, e por estarmos vinculados muito ao IPT, que é um instituto de pesquisas tecnológicas aplicadas, a gente optou por fazer as duas partes”. Interdisciplinaridade Tatiana Scarazzato realizou parte do seu doutorado na Espanha, na Universidade Politécnica de Valência, o que ajudou a alcançar os resultados da pesquisa. “Perto da cidade tem uma empresa que faz a dessalinização de água com membranas de eletrodiálise, e lá vimos um processo em operação. No caso, era para água, e nós adaptamos essa técnica para o tratamento de efluente industrial”, relata. Além da interação com profissionais no intercâmbio, outra contribuição importante foi a coorientação da pesquisadora Zehbour Panossian, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), que desenvolveu uma tecnologia de banho de cobre sem cianeto. O desenvolvimento da pesquisa, portanto, demandou diversas interações. A orientadora do doutorado, professora Denise Crocce Romano Espinosa, do Departamento de Engenharia Química da Escola Politécnica (Poli) da USP, explica que cada agente que contribuiu com o trabalho tinha uma especialidade. “Temos a parte de eletrodiálise aqui, o IPT pesquisa o efluente novo, busca entender como se faz a eletrodeposição do cobre ou de outras coisas, e o pessoal da Espanha entendia mais do mecanismo de troca da membrana. Então, foi um negócio que funcionou muito bem, porque cada parte tinha uma especialidade e as três partes conversaram. Foi sinérgico, mais do que a soma dos três”.  A tese Tratamento de uma solução de um banho de eletrodeposição de cobre isento de cianeto por eletrodiálise: estudo do transporte iônico e avaliação da recuperação da água e de insumos, desenvolvida por Tatiana Scarazzato, e orientada pela professora Denise Crocce Romano Espinosa, foi defendida no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Química da Poli, foi reconhecida com o Prêmio Capes de Teses 2018 na área de Engenharia II, que engloba Engenharia Química, Nuclear, de Materiais, Metalúrgica e de Minas. O Prêmio inclui um certificado, medalha e bolsa de pós-doutorado. (Jornal da USP) Mais informações: Tatiana Scarazzato, email: tscarazzato@usp.br   Leia mais sobre Ciência, Tecnologia e Inovação em BRASIL CTI.