Luiz Depine de Castro

Atraso tecnológico brasileiro: falta educação ou dinheiro?

Atraso tecnológico brasileiro: falta educação ou dinheiro?

A ORIGEM DO PROBLEMA

Após a primeira guerra mundial, por volta de 1920, a indústria americana, entendeu que não seria mais possível continuar a desenvolver tecnologia baseando-se somente no empirismo, como tinha ocorrido até então, inclusive na Revolução Industrial do final do século XIX. Nesse momento a indústria se aproximou da Academia e iniciou-se a chamada TECNOLOGIA DE BASE CIENTÍFICA. Foi essa aproximação que permitiu o desenvolvimento tecnológico explosivo observado no final do século XX e início do século XXI. Os países que não entenderam a importância desse fato simplesmente perderam o passo no seu desenvolvimento e entre eles está o Brasil.

No final dos anos 50 e início dos anos 60, o Brasil agrícola entendeu a importância da industrialização e as primeiras indústrias estrangeiras começaram a desembarcar no País, principalmente a automobilística. Como eram estrangeiras, em um país sem mão de obra qualificada, era de se esperar que se utilizassem da tecnologia desenvolvida no exterior.

O Brasil entrou na segunda metade do século XX com uma política comercial fechada em si mesmo e extremamente nacionalista, o que criou um mercado cativo para as indústrias locais que pouco a pouco foram se estabelecendo.

O mercado interno cativo não incentivou investimentos em tecnologia pela indústria privada nacional, porque ela não é barata e fornece resultados a longo prazo. O governo assumiu esse encargo e passou a incentivar o desenvolvimento tecnológico nas empresas estatais com resultados razoáveis, mas não expressivos, devido à carência de recursos financeiros e de pessoal qualificado. Entendendo essa parte do problema, o governo iniciou, no final da década de setenta, uma enorme formação de doutores no exterior, tudo objetivando a melhoria dos cursos acadêmicos no Brasil, principalmente nas especialidades ditas industriais, visando um salto tecnológico.

Bons resultados foram obtidos em algumas áreas, mas o fechamento do país ao comércio exterior continuou prejudicando sensivelmente o desenvolvimento tecnológico nacional. Um dos exemplos mais típicos foi a famosa Lei da Informática que retardou enormemente a evolução digital brasileira.

Chegou-se ao final dos anos 80 e início dos anos 90 com mudanças radicais, principalmente na política, mas não tanto na economia, que continuou fechada ao mundo.

A constituição de 1988 criou o regime jurídico único e com ele todos os benefícios possíveis e imagináveis para os servidores públicos, não só no executivo, mas principalmente no judiciário e no legislativo. Ora, como todo investimento tem como objetivo maximizar seu retorno, é claro e lógico que os jovens da época, como ocorre até hoje, investiram em carreiras públicas onde a quantidade de postos de trabalho era enorme e a remuneração excelente. Ou seja, as melhores mentes passaram não mais a se dedicar às carreiras tecnológicas geradoras de riqueza, mas às tocadoras da burocracia estatal. O País perdeu em qualidade e quantidade os profissionais que poderiam mudar seu perfil tecnológico, mas ainda havia mercado de trabalho para os pesquisadores tecnológicos na grandes empresas estatais.

No governo dos presidentes Fernando Collor e Fernando Henrique, iniciou-se atabalhoadamente a privatização das empresas estatais. Em todas elas, sem exceção, toda a área de desenvolvimento tecnológico foi extinta, imediatamente, priorizando-se exclusivamente, o lucro imediato.

A privatização sem a abertura do País ao mercado internacional manteve um mercado cativo e eliminou qualquer possibilidade de desenvolvimento tecnológico no setor privado industrial brasileiro.

Nenhum corredor bate recorde correndo sozinho na pista.

A CONSEQUÊNCIA SOBRE A EDUCAÇÃO

Se não há demanda por mão-de-obra qualificada para produzir o desenvolvimento tecnológico, obviamente que não haverá procura pelos cursos superiores na área, principalmente quando existe uma enorme disponibilidade de cargos públicos, altamente remunerados.

Os dados da EUROSTAT, apresentados no gráfico abaixo, mostram, por exemplo, que na Coréia do Sul e no Japão, respectivamente, 80% e 75% dos pesquisadores estão empregados nas empresas de negócios. Na Holanda, França e Alemanha esse percentual é de 60% e mesmo em Portugal ainda é de 30%.

https://ec.europa.eu/eurostat/statistics-explained/index.php/R_%26_D_personnel#R.C2.A0.26.C2.A0D_personnel

O fato do Brasil não ser membro da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) dificulta enormemente a obtenção de dados confiáveis do País em todos os aspectos, inclusive no setor de TECNOLOGIA. Somente agora (2019), o Brasil foi aceito como membro permanente do Comitê de Concorrência da OCDE (Correio Brasiliense – 22/02/2019.

Na falta de dados estatísticos sobre o percentual de pesquisadores brasileiros empregados pela área produtiva nacional, podemos nos valer do site do Senado Federal onde estão lavradas as declarações do presidente do CNPQ e do Diretor da COPPE:

– “De acordo com o presidente do CNPq, Glaucius Oliva, uma pesquisa feita em 2008 com todos os doutores brasileiros formados entre 1996 e 2006 revelou que quase 80 mil deles estavam no Brasil, 97% empregados. Desse total, 80% atuavam no setor educacional. Outros 11% estavam na administração pública e menos de 5% nas empresas” (grifo do autor)

– “Segen Estefen, diretor do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirmou durante o seminário promovido pela CCT do Senado que, “no Brasil, os doutores não vão para as indústrias, com raras exceções, como as estatais, a Petrobras e algumas empresas do setor elétrico.”(grifo do autor).

https://www.senado.gov.br/NOTICIAS/JORNAL/EMDISCUSSAO/inovacao/universidade-doutores-empresas-pesquisa-na-industria-do-brasil.aspx

Se o Brasil emprega, somente, 5% dos seus pesquisadores em empresas produtivas, enquanto Coréia do Sul, Japão, França e Portugal empregam, respectivamente, 80%, 75%, 60% e 30%, fica evidente a impossibilidade de transformar esse País de exportador de commodities a exportador de produtos de tecnologia intensiva.

Os dados do CONFEA (https://www.cimentoitambe.com.br/russia-forma-engenheiros/) mostram que em 1990 a China não chegava a graduar os 42 mil engenheiros que o Brasil formou em 2015, mas em 2015 ela graduou 420 mil engenheiros com a previsão de chegar a 2017 com 650 mil. A Rússia, com somente 146 milhões de habitantes graduou 450 mil engenheiros em 2015, ou seja, dez vezes mais do que o Brasil e até mesmo o México graduou três vezes mais engenheiros que o Brasil, no mesmo ano.

Se considerarmos que, segundo a CNI (Confederação Nacional da Indústria https://caetreinamentos.com.br/blog/engenharia/como-esta-o-mercado-da-engenharia/), metade dos engenheiros brasileiros é dedicada à construção civil e que existem mais 20 especialidades de engenharia das quais somente a metade tem algum relacionamento com a área de tecnologia intensiva, verifica-se que a disponibilidade em mão de obra capaz de mudar o perfil tecnológico do País é quase inexistente.

O gráfico abaixo mostra que menos de 10% dos graduados, no Brasil, estão nessa área intensiva em tecnologia (Engenharia e Ciências Naturais).

O quadro dramático ainda pode ser piorado porque para se tornar um pesquisador e conduzir algum desenvolvimento tecnológico, o jovem engenheiro ainda teria que se sujeitar a um curso de mestrado e doutorado, o que demandaria de 5 a 6 anos. Os que já eram poucos, como mostrado acima, tornam-se quase inexistentes porque menos de 1% dos graduados totais no Brasil, alcançam seu diploma de DOUTOR, como se pode ver no quadro abaixo.

Toda essa carência de engenheiros, mestres e doutores da área tecnológica é confirmada pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior -http://www.capes.gov.br/images/stories/download/avaliacao/19122018_Cartilha-DAV-Egressos.pdf), senão vejamos:

– “…verifica-se que há uma distribuição relativamente proporcional entre os campos de conhecimento das áreas básicas (Natural sciences e Humanities, arts and education) e aplicadas/profissionais (Health and welfare e Social sciences), e com menor proporção de doutores nas áreas ditas aplicadas/tecnológicas (Engineering, manufacturing and construction e Services and agriculture).” (grifo do autor).

– “…desde o quinto PNPG o Brasil sinaliza a necessidade de formação de mestres e doutores em áreas aplicadas com enfoque econômico-produtivo, como foi o caso das engenharias…”(grifo do autor)

– “Em comparação com países membros da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o Brasil aparece em último lugar na formação de nível superior formados em Engenharias e Ciências Naturais (figura abaixo). O Brasil aparece com cerca de 10% de egressos nessas áreas, atrás de países como México (25%) e Colômbia (20%)” – (grifo do autor).

Os dados mostram claramente que o Brasil não dispõe de mão de obra qualificada, em engenheiros, mestres e doutores voltados para os setores tecnológicos intensivos em níveis compatíveis com nenhum país do chamado primeiro mundo e nem da OCDE.

O motivo principal para essa carência, como comentado anteriormente, está diretamente relacionado a ausência de emprego para os profissionais desta área, seja pela privatização de inúmeras empresas estatais que geravam tecnologia, seja pelo desinteresse do setor produtivo nacional em gerar desenvolvimento tecnológico e inovação, ou por ambos.

Não se pode alegar a falta de investimento em EDUCAÇÃO quando se observa o gráfico abaixo apresentado pelo então presidente da FINEP. No máximo pode se dizer que ele é mal aplicado. Com o volume de recursos investido, o País deveria estar entre os melhores do mundo em educação.

https://www.globalinnovationindex.org/gii-2017-report

Status e Perspectivas para o Investimento em C, T&I – Temas Contemporâneos – FGV – Marcos Cintra- Presidente FINEP – 2017

 

(CONTINUA – PARTE 2 – FALTA DINHEIRO ?)

 

Luiz Depine de Castro – Engenheiro Químico (IME), Mestre em Engenharia Química – COPPE (UFRJ), Doutor em Ciência dos Materiais – Universidade de Bath (Inglaterra), Ex-presidente da Associação Brasileira de Carbono (2007 – 2017), Coronel Reformado do Exército, Consultor Tecnológico.