Silvia Caetano

Aprender com a diferença

Aprender com a diferença

Lisboa – O ensino a domicílio é das bandeiras levantadas pelo governo para mostrar eficiência nos seus 100 primeiros dias de inação. A modalidade existe em outros países, mas todos com histórico de investimentos certeiros e excelentes indicadores. Na Suécia, o sistema é considerado crime e, com certeza, os suecos entendem do assunto. Não é o caso do Brasil, onde os ministros e colaboradores do setor, sem qualquer experiência educacional, são nomeados por ordem de um alucinado que vive na Virginia, Estados Unidos.

Uma lógica inversa leva o governo a atacar resultados e não suas causas. Combate-se a violência com o aumento da repressão policial, armando-se a população e colocando snipers em pontos chaves para mirar na cabeça dos bandidos. Desabam prédios arquitetados pelas milícias, causando morte e dor, enquanto homenageiam-se milicianos e até contratam-se seus parentes para trabalhar em gabinetes parlamentares. Mas não se vislumbram políticas públicas para atuar na raiz desses problemas.

O mesmo acontece com a educação pública no país. Se o governo refletisse sobre os argumentos das famílias que querem ensinar seus filhos em casa, perceberia não se tratar de voluntarismo e sim de reação à péssima qualidade da educação que oferece. Também nessa área, as providências são adotadas da frente para trás. Mudam-se os currículos, que continuarão a ser ministrados por professores mal preparados e pessimamente remunerados, em escolas precárias, sem notícias de providências para erradicar o que está na origem da problemática.

Não falta dinheiro para a educação, mas sim conhecimento, gestão e vontade política. Com tantos recursos carimbados para o setor é surpreendente haver dois milhões de crianças, entre os quatro e 17 anos, fora da escola, o que representa 5% da população na faixa etária. 900 mil entre os 15 e 17 estão excluídos do sistema escolar ou não concluíram o ensino básico. Cerca de dois milhões com até 3 anos não encontram vaga nas creches.

Há ainda 7% de analfabetos entre os 15 anos ou mais, sem contar os analfabetos funcionais, que saem da escola pública com escasso saber. São altas as taxas de abandono escolar e de repetência. Os métodos de ensino são desinteressantes ,na maioria ultrapassados, e o ambiente de várias instalações escolares são inapropriadas para o exercício digno da sua função. Algumas, sobretudo nas regiões mais pobres, são possuem sequer banheiro ou água potável.

O Brasil não faz parte da OCDE, mas é reconhecido, entre 40 dos seus países membros, como o que pior paga ao seu professores, a maioria com déficit de formação. Na Finlândia, a profissão de professor é muito reconhecida e os bons alunos desejam seguir a carreira. No Brasil, é carma, o que é compreensível diante do seu desprestígio. A educação, a pesquisa e a cultura nunca foram prioridades no país, e não será possível alavancá-las sem investimento significativo de recursos materiais e humanos.

Um bom professor necessita preparação, em termos de língua e de conhecimento, e precisa gostar de aprender. No Brasil, os professores sofrem com carência de aperfeiçoamento, capacitação e educação continuada. Nada disso, contudo, motiva o governo a promover a recuperação e a melhoria da educação pública. Seu maior feito no setor foi permitir o ensino domiciliar, com o agravante de não possuir estrutura mínima para controlá-lo e fiscalizá-lo. Tanto que planeja cobrar uma taxa às famílias que optarem pelo sistema para criar tais mecanismos.

Portugal acabar de regulamentar as já existentes modalidades educativas de ensino individual e doméstico. Suas regras de controle e de fiscalização são rigorosas. O responsável pelo ensino doméstico precisa comprovar habilitação acadêmica, no mínimo ter cursado uma faculdade. A criança deve estar matriculada numa escola, onde farão provas de avaliação do ensino básico, testes finais, de equivalência e de freqüência. Tudo sob a supervisão de um professor-tutor designado pela direção da escola-matrícula para esse fim.

Não há no país uma só criança em idade escolar fora das salas de aula e a educação é prioridade absoluta. Ninguém conclui o ensino básico sem falar inglês. Quando chegam ao primeiro ano da faculdade, já conhecem os clássicos da literatura, da filosofia e das artes. Turistas brasileiros ficam espantados quando encontram frentistas de bombas de gasolina ou caixas de supermercado fluentes no inglês, o que é raro entre nossos monoglotas dirigentes políticos, parlamentares, que mal se expressam em português, e a população em geral.

A escola abre o mundo para a criança. Estudando em casa, perde o convívio com as demais crianças. Não aprende a interagir com opiniões diferentes, a aceitar a diversidade, a falar em publico, a trabalhar em equipe, a ter empatia e abertura ao outro. Na escola, a criança pode estabelecer seus próprios objetivos, fazer seus planejamentos, identificar problemas e trabalhar para resolvê-los, tornando-se capaz de assumir responsabilidade diante dos resultados.

A diferença estimula pensar, compreender e imaginar alternativas, enquanto a empatia promove a solidariedade e o agir em benefício de todos. Na trajetória coletiva, a criança terá mais condições de aprender o que é democracia, confrontando os valores defendidos por sua família com outros diferentes. Sem essa possibilidade de comparação, terá dificuldades para conviver e aceitar a diferença de todos os tipos, atalho mais curto para os radicalismos do momento.