Jorge Oliveira

Aplausos para Dodge, a chefe da procuradoria

Aplausos para Dodge, a chefe da procuradoria

Creta, Grécia – A imprensa deu pouca importância a notícia de que a Procuradora-Geral da República, Raquel Dodge, desmanchou de vez a operação dos procuradores da Lava Jato que pretendiam criar uma fundação para embolsar os R$ 2,5 bilhões da Petrobrás, fruto de um acordo entre a estatal e os Estados Unidos. Dodge pediu ao STF que o dinheiro seja destinado à educação enterrando de vez a pretensão dos procuradores de se transformarem em lordes financeiros.

Dodge agiu com retidão, coragem e determinação ao enfrentar a República do Paraná, representada pelo seu líder Deltan Dallagnol. Quando deixar a PGR, ela certamente terá feito uma das mais eficientes e transparentes administrações à frente do órgão. Destaque, entre outros, para o enfrentamento com sucesso contra as manobras dos procuradores para criar uma fundação bilionária, onde eles próprios iriam indicar os diretores e os gestores dos recursos como se os cargos que ocupam não os impedissem de virarem homens de negócios.

Dodge encaminhou o pedido ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, a quem cabe agora decidir sobre o destino do dinheiro. A ação, segundo a procuradora, busca assegurar a correta aplicação dos recursos disponibilizados pela Petrobrás em acordos celebrados com o U.S. Department of Justice e a Securities and Exchange Commission.

Dodge explica:

“A solução a ser dada para o destino desta verba, nesta ação, deve, por dever moral (grifo do articulista) e constitucional estar em consonância com os objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil estabelecidos no artigo 3º da Constituição”. Para a chefe da procuradoria, os objetivos constitucionais passam necessariamente pela educação de qualidade, “que se inicia pela formação das crianças na educação básica, que deve ser financiada em favor da sociedade, de forma impessoal, transparente, pública e eficiente”.

A procuradora não está sozinha nessa luta para impedir a “farra do boi”. A iniciativa de criar a fundação foi objeto de críticas também de ministros do TCU e do STF. Gilmar Mendes, o mais indignado, chegou a chamar os procuradores de “cretinos”, entre outros desaforos. E Marco Aurélio, mais ponderado, disse que a fundação é um ato ilegal que prejudica a prestação das contas, inviabilizando o controle fiscal. Classificou o ato como uma “Babel” ao alertar para a desordem que essa ação iria propiciar.

Essa não é a primeira vez que os procuradores da Lava Jato arregalam os olhos para o dinheiro movimentado pela corrupção no governo petista. O ministro Teori Zavascki – que morreu em um acidente de avião em 2017 – já havia interceptado ação semelhante e negou o pedido do Ministério Público para ficar com parte do dinheiro recuperado após a delação de Roberto Costa, ex-diretor da Petrobrás, um dos primeiros a confessar os crimes de corrupção.

A República do Paraná continuou insistindo em criar o próprio banco da Lava Jato com argumentos vazios e propostas inócuas para usar o dinheiro que saiu do país pelas mãos de doleiros e agentes corruptos da política e do empresariado. Ora, quando Dodge veta a pretensão dos procuradores ela também está evitando que a Lava Jato vá para o livro Guinness como a operação que teria transformado simples servidores de estado em bilionários do dia para a noite, sem que precisasse, para isso, fazer nenhum tipo de empreendimento ou investimento com recursos próprios.

Dodge pensa também, ao brecar a atitude desses senhores, em zelar pela integridade deles, pois tem consciência de que mais cedo ou mais tarde todos estariam fora do Ministério Público para se dedicarem full time a operações bancárias. O próprio Dallagnol, que estava à frente da ação, já mantinha contatos com a Caixa Econômica Federal para saber como a fortuna seria investida e qual a aplicação mais rentável para o dinheiro que seria depositado em nome da fundação.

Dessa forma, Dodge não apenas contribuiu para que esses procuradores voltassem a sua atenção ao trabalho de investigação da Lava Jato como também evita desavenças futuras entre eles pela disputa na administração dessa montanha de dinheiro. Como se sabe, poder e dinheiro costumam andar juntos, mas quando um não acerta o passo o que se vê são tragédias entre sócios.

Na justiça há exemplos recentes de opções pelo outro lado do balcão. Moro fascinou-se pelo poder e abandonou a toga. E Marcelo Miller encantou-se pelo dinheiro. Deixou o Ministério Público para prestar serviço a empresas corruptas que ele mesmo as denunciava como procurador.

Pelo menos ainda não é dessa vez que os brasileiros vão perder os experientes e competentes procuradores do Paraná para o capital financeiro, um setor de intrigas, invejas, ambições e cobiças.

A Lava Jato agradece.