Eurico Borba

A política e a crença na Transcendência

A política e a crença na Transcendência

Nas atuais sociedades a participação popular nos grandes movimentos sociais é imprescindível. Como solucionar os graves problemas que afligem a humanidade sem unidade de intenções em torno de algumas crenças? Como construir esta indispensável unidade sem referência à solidariedade? Como aceitar a solidariedade sem crença na Transcendência?

Tais premissas prosperam com dificuldades crescentes num mundo materialista e individualista, intelectualmente medíocre e socialmente vulgar.

Sem o exercício da solidariedade torna-se cada vez mais difícil sustentar uma sociedade democrática, inclusive pela crescente impossibilidade de fazê-la funcionar democraticamente, fato esse que nos leva a repensar, sem o sacrifício da igualdade, liberdade e justiça, a prática desta concepção de convivência humana que tanto bem já proporcionou à humanidade. Esta atual configuração das sociedades democráticas, caso não seja aperfeiçoada, passará a exigir o emprego progressivo da força contra desordens sociais e crimes, burocracia e desleixo público.

O crescente desnível da distribuição da riqueza gerada e a questão ambiental são problemas de fundamental importância. As soluções são impossíveis de serem encontradas no atual ambiente social, político, econômico e jurídico. O eleitorado, o povo, tende a não perceber o perigo para a democracia que é a pauperização da maioria da humanidade. O sistema liberal capitalista não precisa dos pobres, nem com eles honestamente se importa.

Dois grupos humanos estão se formando: os muitos que nada possuem e os poucos que possuem todos os bens e serviços que necessitam para viver com dignidade, em diferentes patamares de riqueza. O primeiro grupo, o mais numeroso, não detêm os conhecimentos que se tornaram requisitos essenciais para a participação no moderno mundo do trabalho.

Superar o insulto da miséria e do progressivo desnível de renda, atentar para o meio ambiente que coloca em risco o futuro físico da humanidade, seria oneroso e desestabilizaria o sistema político econômico dominante. O atual dinamismo do pensamento individualista impede a solução da questão do emprego e da degradação ambiental. O mercado, por si só, não resolverá o problema, pois a divisão do trabalho se impôs com tal magnitude e especialização, que a formação intelectual passa a ser o fator determinante para o exercício da liberdade e para a posse de um posto de trabalho qualquer.

Surge uma nova forma do poder político: – a dominação do saber que, distanciado da reflexão ética, é opressivo por desconhecer o próximo e a necessária virtude da compaixão, que poderia vir ajudar na convivência pacífica dos dois grupos humanos que estão se formando, enquanto que as soluções estruturais permanentes estiverem sendo gestadas.

Para que a incontornável única alternativa politica para o caos humano, que cada vez mais nos oprime, garantindo educação de qualidade e a manutenção do meio ambiente em limites seguros para a vida, o Estado Democrático de Direito precisará intervir, direcionando e administrando investimentos para as áreas citadas, dos recursos oriundos da tributação progressiva, sobre o que for democraticamente considerado apropriação excessiva por pessoas ou empresas, em face da inaceitável pobreza da maioria.

Esses procedimentos políticos, mesmo embasados na reflexão ética e que reflitam decisões sacramentadas pelas urnas, não encontrarão receptividade na classe dominante, pois a ela falta a necessária crença e aceitação da solidariedade, estabelecendo-se, então, as condições de um vasto e danoso conflito social.

As Leis devem ser cumpridas não pelo medo da repressão, mas pela aceitação consciente dos pressupostos éticos que nortearam suas elaborações e destinações.

A ação política cabe explicitar essas crenças que, apoiadas por instituições democráticas estáveis e mídia livre, conduzirão a manifestações periódicas da população, (eleições), dando sustentação popular consciente, para as decorrentes ações publicas que concretizarão os objetivos pretendidos pela maioria: emprego, participação, liberdade, justiça e paz.

As religiões, mormente as cristãs, de onde se espera inspirações de fraternidade e comportamentos morais, com raízes fincadas na crença do Transcendente, fracassaram nas suas missões históricas e estão perplexas e inoperantes perante o crescente caos social, a violência e o individualismo. A cidadania encontra-se sem orientação política, critica e segura, sobre o que pensar e em que acreditar. Os sistemas democráticos de governo já não atendem as necessidades básicas das populações nem seus anseios de liberdade concreta. Tal situação vai jogando os povos nos braços da irresponsabilidade demagógica, da indiferença debochada e cínica da maioria dos povos, que assim se comportam pela ação deliberada da classe dominante que aperfeiçoa seus mecanismos de dominação, com o uso cada vez mais intenso da modernidade tecnológica descolada da ética.

A solidariedade pode vir a ser um bom negócio… Garantiria e aperfeiçoaria, no longo prazo e pacificamente, a transformação de uma sociedade que oprime numa outra forma de convivência solidária que liberta, promovendo o sonhado “Humanismo Integral”.

No médio e longo prazo, as pessoas humilhadas e miseráveis, a maioria da população mundial, podem vir a escolher entre viver na miséria, silenciosos e submissos, sem esperanças de usufruir ao menos pequenas parcelas do atual extraordinário desenvolvimento, ou lutar nas ruas, exigindo do sistema um mínimo de atendimento de suas necessidades humanas básicas, pelo menos uma pobreza digna e o respeito que lhes é devido por serem pessoas, cidadãos e cidadãs.

Persistindo o atual quadro global de comportamentos e intenções, só nos resta esperar o pior.

Eurico de Andrade Neves Borba,78, escritor, ex-professor da PUC RIO, ex-presidente do IBGE.