Ipjuca Pontes

A morte da cultura brasileira

A morte da cultura brasileira

Depois de ativa participação na vida cultural brasileira nos anos 60/70/80/90 – como jornalista, cineasta, escritor, dramaturgo e integrante de entidades culturais – fiz, por sugestão do insuperável Júlio de Mesquita Neto, diretor responsável de O Estado de São Paulo, abrangente levantamento da vida cultural brasileira na Era Sarney, o Zé Ribamar, levado a presidente da República por trágico acaso.

Sim, é verdade: foi por obra do baixo político maranhense, impostor semiletrado, que se cuidou de importar da França para o Brasil (ah, a colonizadora França sempre no meio do caminho!) o modelo institucional do seu corrupto e corruptor Ministério da Cultura – início do caos que se abate até hoje sobre a área conflagrada.

(Antes de seguir adiante, dois esclarecimentos: 1) Zé Ribamar, verdadeiro nome do sátrapa, na sua permissividade irresponsável, deixou que a hiperinflação cabocla atingisse a casa dos 3% ao dia, tornando a vida da nação um inferno diário – enquanto ele, o dito Ribamar, se derramava em cima de beletrismo indigente, rabiscando coisas tipo “Brejal dos Guajas”, um bestialógico que, como previsível, o levou à Academia Brasileira de Letras.

2) Outro adendo é que acompanhei todo o desencadear da “ocupação dos espaços” culturais pela fauna em ebulição, em especial o serpentário de comunistas, socialistas & derivados, quando, então, foram estabelecidas dezenas de departamentos, conselhos, institutos, empresas e fundações culturais, em torno das quais fincou-se toda uma casta de burocratas empenhada em alimentar o apetite incontrolável de falsos artistas, corporações engajadas e ativistas ideológicos, cujos gastos, usurpados miseravelmente do fruto do trabalho da população, terminaram por se incorporar à espantosa espiral hiperinflacionária já mencionada).

Minhas considerações, à época, revelando as distorções do intervencionismo estatal e suas relações com o clientelismo das corporações culturais publicadas no “Estadão”, em junho de 1989, versando sobre “O Estado mecenas e sua fauna cultural”, “A cultura do Estado e seus privilegiados” e “Cinema cativo do Estado”, explodiram como uma bomba na cabeça dos donos da cultura oficial do País. Comprovadas, todas elas apontavam com riqueza de detalhes o novo ministério como fonte do empreguismo, do negocismo e do aparelhamento ideológico do Estado tradicionalmente cartorial e inepto.

A reação, em cadeia, não se fez esperar: Sir Ney virou uma fera. Mas o trêfego ministro da Cultura José Aparecido, o Zé das Medalhas, macaca velha, denunciado por fazer pacotes de nomeações fraudulentas, passou a telefonar dia e noite oferecendo passagens, hospedagens e benesses para manter “uma conversa” comigo em Brasília.

Por sua vez, um burocrata da Embrafilme (estatal do cinema 100% corrupta – e, tal como a UNE, um feudo dos comunas), Ney Sroulevich, parceiro do futuro secretário-geral do Foro de São Paulo, Marco Aurélio “top top” Garcia, passou a mandar recados ameaçadores. Já a comunalha dos Funarte, que usava os fundos públicos para promover cursos, publicações e mostras marcadas pelo patronato ideológico e, em larga escala, o engodo estético – resolveu, curiosamente, ficar na moita.

No campo teatral – área dominada pela doença do assembleísmo das corporações militantes – a Fundação Nacional das Artes Cênicas, Fundacen, navegava na canoa furada da má administração de teatros e salas de espetáculos deficientes e no financiamento de montagens semiamadorísticas, de pouca ou nenhuma expressão artística, alimentando o clientelismo de praxe. Por sua vez, o Centro Cultural Banco do Brasil, CCBB, com dotação orçamentária de centenas de milhões de dólares, concentrava nas mãos de uma só pessoa, o medíocre ator Sérgio Brito, verbas anuais na ordem de milhões de dólares para investir a fundo perdido em espetáculos, no dizer do próprio Brito, capazes “de espantar qualquer patrocinador com sua associação de imagens vivas inspiradas em órgãos sexuais, cogumelos e outras formas”.

Apanhado de calças nas mãos, o responsável pela administração da CCBB, apresentou no Jornal do Brasil respostas vazias que em nada contestavam as denúncias. Então, diante do descaso, resolvi aprofundar a devassa e passei a analisar os passos da Fundação Banco do Brasil, a alocadora dos recursos da CCBB envolvida em auditorias e substituição de diretorias. Foi quando apareceu o sr. Mário Bérard, presidente do Banco do Brasil, intervindo na bagunça e dispensando os dispendiosos serviços do ator Brito.

No entanto, o melhor estaria por vir: o candidato a Presidente da República Fernando Collor de Mello, em viagem, leu as reportagens do Estadão e ficou impressionado. Voltou-se, então, para o jornalista Sebastião Nery, seu assessor, manifestando interesse em conversar com o autor das matérias. Eu nunca tinha visto Collor na minha vida nem tinha o menor interesse em entrar na política, ou pelo menos no mundo da política partidária. Mas terminei gerindo a pasta da Secretaria Nacional da Cultura, uma experiência humana e administrativa extraordinária.

Foi lá, debaixo de bombardeio de fazer inveja a Bolsonaro, que lutei de forma obstinada para diminuir o tamanho do Estado-elefante transformando o Minc em Secretaria, fechando o Ninho Vermelho da perdulária Embrafilme, promovendo a criação do IBPC e do IBAC, dois institutos a fundir dezenas de fundações e penduricalhos a serviço do ativismo político selvagem e do empreguismo parasitário. De quebra, criamos a Fundação Biblioteca Nacional e fortalecemos a Casa de Rui Barbosa, voltada para a promoção de estudos e pesquisas de filologia, jurisprudência e história.

O caminho para democratizar a atividade cultural ficou aberto. Antes de deixar o cargo, fiz ver a Collor de Mello que se devia completar a reforma com firmeza e serenidade. Considerei também que a batalha seria dura, pois desde da Intentona de 1935 o comunismo internacional queria tomar conta do pedaço.

Mas Collor era um amador, como diria o poeta Gabrielle D’Anunzio, apenas “uma cascata de brilhantes químicos” e deu no que deu, ou seja, em Itamar, FHC, Lula e Dilma Rousseff, incréus a serviço da esbórnia.

Mas Bolsonaro não é Collor. E a população brasileira já está mais do que vacinada com o desperdício do dinheiro público.

Assim espero.