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O fígado sofredor

O esporte favorito de Miguelzão, figura popular em Campina Grande (PB), era chamar de “beberrão” um conterrâneo ilustre, nos papos do calçadão da avenida principal, naquele ano de 1990: o poeta e candidato a governador Ronaldo Cunha Lima. Eleito, Cunha Lima resolveu fazer as pazes com Miguelzão. Uma testemunha ponderou:

- Ronaldo não guarda nenhum rancor, reconheça que ele tem bom coração!

- É, o coração dele é bom – assentiu Miguelzão – Mas o fígado não presta...

Ah, se existisse blog...

Os boatos já tomavam Brasília, naquele 25 de agosto de 1961, quando o então ministro da Justiça de Jânio Quadros, Pedroso Horta, reunia-se a portas fechadas com o presidente do Congresso, senador Moura Andrade. Repórter atento e muito competente, Murilo Melo Filho estava no outro lado da porta, quando Pedroso Horta saiu do gabinete de Moura Andrade.

- Murilo, veja se isto lhe interessa – disse Horta, estendendo-lhe um papel.
Era nada mais nada menos que a carta-renúncia de Jânio Quadros.

Cabeça chata

Baixinho, atarracado e quase sem pescoço, o marechal cearense Humberto de Alencar Castello Branco certa vez reagiu assim à pilha de processos levada a ele pelos ministros Octávio Bulhões e Roberto Campos:

- Os senhores sabem por que eu tenho cabeça chata? É de tanto os senhores baterem nela e me pedirem: ‘Assina logo isso aí, presidente’...

Bravura à brasileira

Preso durante o regime militar por ordem de um coronel Epitácio, delegado do DOPS, o saudoso jornalista Carlos Castello Branco assistiu a uma cena histórica: a chegada do valente advogado Sobral Pinto à delegacia, aos berros, arrastado por policiais. O coronel arrogante falava muito, até mencionar a expressão “soluções à brasileira”. Sobral perdeu a paciência:

- Agora chega, seu coronel, porque não existem “soluções à brasileira”. O que existe apenas é peru à brasileira!

O ‘furto’ que não houve

Brasília não merece mesmo a fama dos políticos que a frequentam. Quando renunciou ao mandato, na esperança de retornar ao poder pelas mãos dos militares, Jânio Quadros pediu ao ajudante de ordens, major Amarante, que deixasse no Palácio Alvorada um terno e sapatos. Mais tarde, em 1978, conforme relato de Murilo Melo Filho em seu soberbo “Tempo Diferente” (ed. Topbooks, Rio, 295 pp.), Jânio contaria uma lorota à revista Manchete:
- A Presidência da República não me deu nada. Pelo contrário, andou me tirando. Lá, furtaram-me um terno, uma camisa e um par de sapatos...

Segredo revelado

Tancredo Neves era candidato a presidente, no Colégio Eleitoral, quando esteve no Recife para conversar com o senador Marco Maciel. Participaram do papo o saudoso senador Marcos Freire e os deputados Roberto Freire e Jarbas Vasconcelos, todos do PMDB. Ao despedir-se, Tancredo olhou para os três e sentenciou, apontando para Maciel:

- Agora eu sei porque vocês vivem perdendo eleição para ele...

No mundo da Lua

O governador Roberto Magalhães recebia o presidente Ernesto Geisel em almoço, no Recife. Era uma sexta-feira, por isso seu vice Gustavo Krause dispensou a gravata, vestindo jeans, casaco branco e sapatos idem. Magalhães achou aquilo inadequado e fez o vice corar de vergonha:

- Presidente, este é o doutor Gustavo Krause, meu vice-governador, que, para estar vestido de astronauta, só falta o capacete...

Papel de deputado

Paulo Lustosa era deputado federal pelo Ceará quando foi procurado por um prefeito. Ele queria resolver “um problema urgente” e estendeu um papel.

Lustosa leu e se espantou com o teor da pretensão:

- Mas isto é ilegal, infelizmente não será possível.

O prefeito torceu o nariz, indignado:

- Se fosse legal, eu não precisaria de deputado...

Hóspede indigesto

Mocidade era figura folclórica na Paraíba dos anos 60. Não tinha emprego, mas andava bem vestido graças à generosidade de pessoas como o governador João Agripino, que até permitiu que ele morasse no palácio. Mas Mocidade adorava atacar o governador e pregava a invasão do palácio para “derrubar o governo!”. Agripino soube e o chamou para almoçar:

- Mocidade, quem lhe dá quarto e comida?

- O senhor.

- Como, então, você convoca uma multidão para derrubar o governador?

Mocidade respondeu com o garfo suspenso na altura do queixo:

- Governo tem que se lascar, existe para ser derrubado...

Torturador de ouvidos

Deputado do PDS, Nilson Gibson (PE) se divertia tirando a oposição do sério. Certa vez, em 1982, ele foi à tribuna da Câmara atacar o PMDB do seu Estado, para ele “vítima de araque” do regime militar. Em aparte, o peemedebista José Carlos Vasconcelos vestiu a carapuça e o acusou de “defender o arbítrio”. Com seu jeito eloqüente, Gibson desafiou:

- Vossa Excelência, por acaso, alguma vez já foi torturado?

Vasconcelos respondeu “não”. Era a “deixa” para o implacável conterrâneo:

- Mas bem que merecia!

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