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Homens e mulheres que nos proporcionaram algo de valioso para nosso espírito, e que nos deixaram, são, a toda hora, reclamados para estarem entre nós como personagem viva.

Quem ouve um sempre ameno bolero de Ravel ou uma instigante e doída Polonaise, do imortal e glorioso Chopin (o santo dos noturnos), quem se delicia com a canção e os passos rocambolescos e harmoniosos de Fred Astaire e seus arrebatamentos com sua doce parceira Ginger Rogers, ou quem se entrega às notas do samba atrevido de Noel Rosa ou do chorado Cartola; quem dispõe de um exemplar do arquificcionista brasileiro mais que escritor que nos revelou a sapeca e espontânea Gabriela, quem perscruta e se aprofunda na pintura de Renoir ou de Lautrec, e com ela se deslumbra, quem se enternece com uma estrofe sentida daquele anjo que foi Raul de Leoni, quem relê a poesia de Drummond (de preferência também desfrutando da paisagem vespertina de Copacabana) - então o poeta encarnando a vanguarda - quem se entrega à poesia de Cecília Meireles, aquela que demonstrava uma contínua “ausência do mundo” (CDA), quem lê JK, o “contemporâneo do futuro” (PPC), com seu sorridente e contagiante otimismo, quem se impressiona, ainda hoje, com a inteligência e o alarido desconcertante de Lacerda, quem prazerosamente se acultura com a erudição extraordinária de Afonso Arinos (Amor a Roma é um hino, e será tão eterno quanto a cidade); quem se distrai com Walt Disney, o gênio da ingenuidade, quem se comparou com a mocidade e a rebeldia de um James Dean ou cedeu à sedução imperecível de Elvis Presley; quem se perde admirando o traço mágico do mais que centenário Niemeyer, o redentor das curvas, quem mais viu e muito riu das estripulias televisivas do inesgotável Ronald Golias e outros mais que nos encantaram nas artes cênicas mundiais, estes sim, estes nos proporcionaram instantes de saudáveis e inesquecíveis descontrações. Foram, é certo, bálsamo poderoso para nossas feridas, todas elas. E suas participações na vida mundana deixaram legado precioso de que hoje desfrutamos pelos meios magnéticos, que aqueles também nos legaram. Vimos o homem desembarcar na lua e a atual geração ainda arrisca-se a testemunhar uma nova proeza nos arcanos galácticos que será a chegada triunfante a Marte. E lembrando ainda o futebol, que a cada dia nos surpreende com os dribles estonteantes dos novos europeus, os contemporâneos podem dar-se por muito satisfeitos, um tanto melancólicos pelas partidas dos que celebraram festivamente a vida conosco, mas pode-se afirmar que vivemos intensamente horas fantásticas de transformação de homens e máquinas, estas de hoje que prometem afastar para muito longe antigas tragédias como a do Titanic ou a de Orly.

Não se enumeram aqui os cientistas que deram à humanidade condições de vida e de sobrevida, mas tão só aqueles que nos fizeram alegres por uns momentos e que nos fizeram esquecer, também por um instante, de que tínhamos mais vida e menos sobrevida.

A todos que nos deram uma quase felicidade, descansem em paz. A humanidade agradece.

José Maria Couto Moreira é advogado.

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