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Uma revolução nas ruas

No dia 1º de maio de 1886, trabalhadores dos Estados Unidos deflagaram uma greve pela jornada de trabalho de oito horas. Passados 132 anos, e após conquistas como a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), eis que trabalhadores brasileiros vão às ruas para protestar contra uma reforma trabalhista (no momento em suspenso e pendente de medidas provisórias) que altera direitos adquiridos, como a própria duração da jornada de trabalho e abre espaço para algo temeroso como a redução de salários. Articulado pelos sindicatos, boicotado pela grande mídia, o protesto da última terça-feira não repetiu as grandes manifestações de 2013, quando milhares de pessoas ocuparam ruas e avenidas contra o aumento no preço das passagens de ônibus (e isso levou a outras bandeiras), mas deixou claro que por mais alcance que tenham as redes sociais, nada como o pé no chão e o grito na garganta para, por vezes, abalar governo.
O protestos de Paris, em maio de 1968.O gesto que abriu a semana evoca outra data extremamente significativa: maio de 1968, que recebeu um bom destaque na imprensa, com matérias lembrando os dias turbulentos. Há 50 anos, estudantes franceses resolveram marchar contra uma reforma educacional. Foram reprimidos; todavia, o movimento ganhou força, trabalhadores se juntaram aos jovens; a repressão aumentou, porém como um rio turbulento, arrastou todos para a maior greve geral da Europa. Além do conteúdo político, maio de 68 trouxe profundas mudanças culturais. Até então, a noção de juventude era difusa. As pessoas pulavam diretamente da adolescência para as responsabilidades da fase adulta. O mundo viu uma espécie de nova força surgir, ainda sem o objetivo claro, mas com um lema forte: “é proibido proibir”.
No Brasil, que vivia sob uma ditadura, o lema virou música de Caetano Veloso, e abalou as tradições familiares. Na verdade, a luta era contra o autoritarismo, em todos os sentidos; os jovens não estavam dispostos a viver sob nenhum tipo de julgo, e foram à luta. Houve exageros (“não confie em ninguém com mais de trinta”), mas foi a juventude que materializou nas ruas a oposição ao regime militar, com a passeata dos 100 mil e as greves – a situação chegou a tal ponto que o governo impôs o famigerado decreto 477, em 1969, que proibia atividades políticas por parte de professores e estudantes.
Maio de 68 foi importante também porque lançou a semente do feminismo. Em setembro, houve a metafórica queima de sutiãs, em Atlantic City, nos EUA. A partir daí, as jovens romperam com um modelo de submissão e passaram a assumir o controle de suas vidas. Surgiram figuras icônicas, no Brasil, Leila Diniz que foi à praia grávida, usando um biquíni. 
Em todos os sentidos, depois de 68, o planeta nunca mais foi o mesmo. Ainda hoje aprendemos com as lições daquele período efervescente.

Ronaldo Lessa é deputado federal pelo PDT-AL.

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