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O preço da história da cidade

A restauração de um prédio histórico, quando concluída, parece definitiva e que dali por diante tudo estará preservado. Ledo engano! O tempo, o clima, aves, cupins, a mão humana e outros elementos comprometem, severamente, sua conservação. Mais que uma obra nova, os edifícios antigos, embora pareçam fortes, são indefensáveis.

Um exemplo disso é o Palácio do Comércio, restaurado entre 1999 e 2000, quase vinte anos depois já apresentou inúmeros problemas, alguns de difícil solução. Há cerca de quatro anos, ninguém imaginava que o teto do auditório estivesse por ruir. Uma linha que segurava o telhado havia se deslocado a ponto de empurrar o estuque para baixo. Mais algum tempo o prejuízo seria enorme. Foi trabalho gigantesco para alçar a peça de madeira novamente e corrigir as falhas. Mesmo assim, o telhado, sobretudo, as calhas, sempre foi uma preocupação, principalmente, em época de chuva. Boa parte da pintura decorativa não resistiu ao sofrimento. Haja dinheiro! Mão de obra cara! E quem assumisse a responsabilidade para pôr tudo em ordem outra vez. Depois de tantos arranjos malsucedidos, finalmente, estamos aplicando calhas de alumínio e manta asfáltica. O primeiro espaço a receber esta proteção foi o telhado do auditório; agora, serão os dois outros vãos contíguos às fachadas da Sá e Albuquerque e Cícero Toledo.

Apesar disso, em momento algum esse prédio teve sossego. Coisa, aparentemente sem importância, como um som muito alto faz quebrar o reboco. Vez por outra, despenca um capitel de uma coluna, uma cornija interna, ou alguém suado se encosta na pintura decorativa do auditório e mancha. Enfim, um pombo que descobre uma entrada pela malha já existente no telhado. Pintar o prédio inteiro custa uma fortuna, e quantas vezes já necessitou ser feito desde a última restauração?

Há quatro anos, era o piso de madeira do terceiro andar que estava arruinado. A composição de tonalidades distintas tinha se transformado em um quebra-cabeça desmontado. Foram meses de trabalho até recompor todo o auditório e depois o salão nobre.

A questão é que imaginamos que restauro é embelezamento apenas, quando o pior está na parte elétrica que envelhece, nas ampliações das redes, necessárias ao funcionamento da instituição. Enfim, quem está de fora nunca percebe o que no dia a dia se faz em benefício da preservação. E muito pior é quando se trata do item segurança. As duas fachadas laterais hoje estão fechadas de grade com uma concertina de arame farpado, por causa dos inúmeros furtos sofridos. Foi necessário fechar o peristilo, a fachada do lado praia, para acabar com o dormitório de usuários de drogas. Ninguém suportava mais a sujeira e o mau cheiro. Só mesmo vivendo esta realidade.

Benedito Ramos é escritor.

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