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Getúlio Vargas era personagem complexo: raramente confiava em alguém e vivia cercado de “amigos” que lhe eram subservientes, mas nele não confiavam; ouvia a todos, acordava soluções com diferentes alas, facções e partidos, mas, ao fim, só fazia o que queria; de pouco falar, não gostava de expor-se em público e, no entanto, encarnava em longos discursos o papel de ator principal da propaganda política do Estado Novo.

Mesmo quando traído pelos acontecimentos, guardava coerência entre tantas incoerências. E quando era ele a trair os acontecimentos, como no golpe de 37 ou, quando, afinal, “a cobra fumou”, forçando a adesão beligerante aos países aliados na II Guerra mundial, manteve a falsa incoerência de “ler” os fatos políticos de maneira própria e assumir sobre eles o controle ditatorial.

Rigoroso, perspicaz, autoritário, carinhoso, benevolente, tímido, voluntarioso, paciencioso, rigoroso, estudioso, mercurial, astuto, sagaz, ardiloso, usava as mãos e o chapéu para acenar bondosamente. E, contemplando nesta esfinge ambígua o culto permanente do enigma, usava as mesmas mãos, sem ao menos tirar o chapéu, para perseguir e assinar ordens de prisão.  Nacionalista, mandou prender o nacionalista Monteiro Lobato pela causa do petróleo que ele próprio defendia. E mandou entregar à Alemanha nazista Olga Benário, então grávida de Anita Leocádia Prestes.

Getúlio Vargas é personagem do documentário “Imagens do Estado Novo – 1937 a 1945” de Eduardo Escorel e Claudio Khans, premiado com menção honrosa no Festival “É tudo Verdade”. O documentário de 227 minutos teria levado 13 anos para ser feito e, aparentemente, não consegue decifrar a esfinge, induzindo ao engano de ver em Góes Monteiro um amigo e em Oswaldo Aranha um inimigo de Getúlio, quando parece ter sido o contrário.

No próximo documentário – de 45 a 1954 – poderá contrapor o bem explorado “Eu não vi” de Alzira Vargas ao “Eu vi” do jornalista Villas-Boas Corrêa, na manhã do suicídio: “o ar de festa, o clima de desafogo que percebia nos pedaços de conversa afinada pelo tom de repulsa do “já vai tarde”, incendiado pela chispa da trajetória, transformou-se instantaneamente. A cidade ardeu em incêndio, desatinou-se no quebra-quebra e na pilhagem, até que se exauriu. Só então a multidão encontrou-se para chorar o suicida que aplicara seu derradeiro golpe político. Um golpe de mestre”.  Genuíno, nesses tempos de tantos golpes e tantas maestrias.

Amado e odiado, Getúlio era muitos. Ambíguo, respondia com perguntas para ganhar tempo nas decisões. Empregando expressões de duplo sentido, preferia mais ser interpretado que compreendido, “rindo para dentro” ao ver os interlocutores desorientados em querer saber o que de fato pensava a respeito de tal ou qual assunto ou pretensão. Antecipava os movimentos políticos, de insurreição ou apoio, no tabuleiro de um xadrez labiríntico muito próprio, desarmando-os quase sempre com maestria.

Vagando solitários no poço das emoções reprimidas, os vários Getúlios conduziram os destinos do país por longos 18 anos e meio. Estudava minuciosamente os atos e pareceres dos vários ministérios, após o expediente, anotando modificações, sugestões de estudos mais aprofundados, riscando impropriedades. Fez o bem e fez o mal, cometeu erros e acertos. Não permitia, por exemplo, que a família usasse carros oficiais.

O que lhe dava algum rigor na decisão era a ideologia. Positivista gaúcho, republicano, defensor do governo científico, forte e tutelar, tinha a crença – compreendia a grandeza e o potencial do Brasil - e a obstinação de fazer do Brasil um país melhor, malgrado o egoísmo interesseiro das elites de então. O maior inimigo de Getúlio, na prisão de mil janelas, era o próprio Getúlio e, talvez por isso, um tenha dado cabo do outro: em agosto de 54, o homem mata o personagem e faz nascer o mito.

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