Publicidade
Tiros na alma

Tiros em Lincoln, tiros em Gandhi, tiros em Martin Luther King, tiros em Chico Mendes, tiros em Marielle Franco. Longe de qualquer processo comparativo, há traços que os unem: todos lutavam não apenas por si, mas por uma causa, todos pregavam a paz, e todos foram assassinados sem chances de defesa. A máxima dos facínoras parece ser: se não podemos matar as ideias, matemos os homens. Só que as ideias vão além dos homens, e cada vez que um justo tomba, outros surgem disseminando seus pensamentos, não permitindo que sejam esquecidos.

Os assassinatos políticos, infelizmente, estão arraigados na história da humanidade, talvez, desde Caim e Abel, passando por Rômulo e Remo, os fundadores de Roma. Mais recentemente, a Primeira Guerra Mundial foi desencadeada a partir do assassinato do arquiduque da Áustria, Francisco Fernando. Tais crimes, contudo, envolveram impérios e desencadearam fatos que afetaram gerações. Todavia, o que se vê hoje é o homicídio praticado contra seres que não propugnam violência, não querem abalar a estrutura do Estado. Querem, tão somente, dar voz a quem não tem voz, defender os excluídos, lutar por justiça e propor a paz.

E por que essas pessoas incomodam tanto? Não pegam em armas, não atiram bombas, não agridem com socos e pontapés seus oponentes. Chico Mendes defendia o meio ambiente; foi morto com um tiro de escopeta no peito. Marielle defendia os negros, favelados e homossexuais; foi morta com tiros na cabeça. São causas muito ligadas a uma postura de vida, a fazer do entorno um lugar muito melhor para todos. Há ainda um outro aspecto que funciona como gatilho para os que sustentaram as armas que os mataram: a questão comportamental. Não se trata só do que dizem, mas como agem. Os tiros são deflagrados não apenas contra a mulher, mas contra a mulher negra e homossexual; o chumbo da escopeta atinge não apenas a liderança, mas também o seringueiro que ousou não sair da floresta e dali espalhar seu protesto pelo mundo. Um torneiro mecânico presidente? Ignomínia! Um jovem homossexual deputado? Aberração! Um comunista governando um estado? É o fim dos tempos! Contra tudo isso: balas. Temos, pensam os intolerantes, que mostrar que não há espaço para esse tipo de gente na sociedade ordeira que queremos impor.

O que querem eles? Parece claro: sufocar o surgimento de qualquer jovem líder que não esteja atrelado ao modelo tradicional de fazer política. As mortes são exemplares. Da favela, não pode emergir ninguém que traga um sopro de renovação e revele que os bandidos não mandam em tudo; do campo, não pode botar ninguém que veja a terra não apenas como um negócio, mas como um espaço interativo para fauna e flora. Querem matar o amanhã; por isso, temos que resistir hoje.

Ronaldo Lessa é deputado federal pelo PDT-AL.

Publicidade
TWITTER
@colunach

 
Busca
Redes sociais
@diariodopoder
© 1998 - 2018 - Todos os direitos reservados