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Quando eu era adolescente tinha a ideia, baseada em coisa nenhuma, de que morreria cedo, sem alcançar a fase adulta. Leitor assíduo da vida e da obra dos poetas que partiram na flor da idade, imaginava-me seguindo o mesmo destino de Castro Alves e Álvares de Azevedo, com a nítida desvantagem de não possuir nenhuma obra literária que me assegurasse a perpetuidade a eles garantida. Pensava em minha mãe chorando ao lado do meu caixão, nos amigos tristes em meu redor e na paixão primeira da minha infância, que nunca quis ser minha namorada, lamentando o tanto de vida que não nos havia sido permitido experimentar. E eu sentia pena de mim mesmo, pobre sonho interrompido antes de se tornar realidade, centelha de vida extinta sem que pudesse ter brilhado. O suicídio de um conterrâneo quase da minha idade, Zé Márcio, alimentou esses meus pensamentos, trazendo a morte para as minhas reflexões diárias. 

Depois cheguei à juventude, comecei a trabalhar assim que entrei na universidade e os compromissos que foram se acumulando impediram-me de pensar em mais besteiras, a luta pela sobrevivência consumindo os meus pensamentos e direcionando as minhas ideias somente para o que fosse positivo e edificante. Muitos livros, alguns amores, família constituída e filho plantado no mundo, uma existência normal e simples. Dali para hoje foi um pulo: os cabelos rarearam, os poucos remanescentes ficaram brancos, a barriga cresceu, a vista encurtou e os passos, antes sempre céleres, agora são dados com muito mais atenção para com os abismos à sua frente. O tempo, implacável, começa a cobrar a sua fatura, e por mais que os olhos volvidos para mim mesmo insistam em por vezes enxergar o menino de outrora, a imagem refletida no espelho me impõe a constatação, doída, de que muita coisa foi ficando pelo meio do caminho e já não pode mais ser resgatada. 

Alguns dos meus amigos de infância nem chegaram aos cinquenta anos e já são avôs. Ainda sou capaz de vê-los na meninice, cabeleira assanhada e unhas sujas de terra, roupinhas sem graça iguais às minhas. Custa-me encará-los como provectos senhores, eles que até ontem corriam de bicicleta, brincavam de queimado e jogavam ximbra comigo. Quando nos reencontramos, geralmente nos dias da festa da padroeira, a mesma calçada de outrora acolhe as nossas gargalhadas e testemunha os nossos abraços fraternos. Os apelidos ressurgem e soam como música em nossos ouvidos. De novo somos Pita, Sama, Cicinha, Liu, Marquinho, Nano, Quinho, Dida, Guga, Dedé e Dena – e renascemos, mesmo que por um instante apenas, ao lado de quem não nos deixa esquecer de quem um dia nós fomos.


Diógenes Tenório Júnior, advogado, é membro da Academia Alagoana de Letras.

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