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A aventura dos macacos de auditório

Barra de São Miguel, AL – Que me desculpem os símios do título aí de cima, mas, francamente, cansei de ficar vendo o Fernando Henrique Cardoso, que já foi ministro, senador e duas vezes presidente da república, brincar de fazer política. Incentivar a candidatura de Luciano Huck a presidente é simplesmente debochar dos brasileiros ou tratá-los de forma depreciativa como macacos de auditório.  Trazer para a cena política nacional um apresentador só porque ele usa sucatas de automóveis como programa social na TV é querer tentar consertar um carro enguiçado chamado Brasil com um mecânico amador, inexperiente e aventureiro.

 

O Sílvio Santos já tentou isso uma vez e desistiu quando lhe apresentaram a fatura da aventura e o submeteram a um teste de conhecimento. Se tivesse insistido na sua pretensão seria uma tragédia anunciada. O último bufão que saiu de um programa de TV (The Apprentice) para a presidência está cada vez mais ridicularizado. Donald Trump briga diariamente com a imprensa, comete gafes grotescas e é retratado pela mídia como um boneco de cera incompetente. Eleito com certa euforia por um eleitorado medíocre que o via como um astro hollywoodiano, hoje amarga índices de impopularidade sem precedentes nos Estados Unidos.

 

Aí, você que é fã do Huck perguntaria: por que não ele? A Constituição diz que qualquer brasileiro nato, desde que filiado a um partido político, pode ser candidato a presidente da república. Não se quer aqui tirar o direito que o apresentador tem de lançar sua candidatura. Não é por falta de partido, pois o presidente do PPS já lhe ofereceu o dele. Trata-se de apostar no escuro, como fizeram os brasileiros que votaram na Dilma, anunciada fraudulentamente como a mãe do PAC por seu antecessor Luiz Inácio Lula da Silva, que deixou a presidência com uma popularidade assombrosa de mais de 80%. Em compensação, a sucessora chegou próximo dos cem por cento de rejeição.

 

Huck está sendo apresentado à população por alguns políticos como um candidato preparado para assumir o destino da sétima maior economia do mundo. É uma falácia, um engodo, uma fantasia. Com exceção do próprio FHC, os candidatos que chegaram a Brasília como messias, pelo voto direto, depois da ditadura militar, foram um desastre. Não estou incluindo aqui os indiretos como Itamar Franco e Sarney. Dois deles apenas cumpriram seus mandatos: FHC e Lula, este condenado a doze anos por corrupção. Os outros dois, Collor e Dilma, sofreram impeachment. À semelhança de Huck, esses apareciam como salvadores da pátria em um país atolado em problemas sociais e econômicos. Nesse percurso ficaram no meio do caminho candidatos como Mário Covas, Ulysses Guimarães, Brizola etc. etc.

 

Normalmente esses candidatos do show business aparecem quando o país está em crise e a população descrente dos seus líderes. Aconteceu assim com o Collor que tirou proveito do governo fraco de José Sarney, no fundo do poço, com uma inflação insuportável que beirava os 80% por dia, isso mesmo, por dia! A campanha de Collor teve o apoio escancarado da Rede Globo de Televisão que deslocou de Brasília uma repórter e um jornalista experiente para comandar a TV Gazeta, afiliada da Globo, do grupo do candidato, em Alagoas, para produzir matérias nacionais favoráveis à administração dele como governador. Foi nessa época que surgiu o caçador de marajás que alavancou o seu prestígio no país.

 

O Brasil pode repetir a dose, pois, por trás dessa aventura do Huck existe o dedo da TV Globo, que só deixou de apoiar o Collor na presidência depois que o seu governo fez uma aliança com Brizola, inimigo mortal do Roberto Marinho, o jornalista que por décadas deu às cartas na política brasileira. Ou você acha que a aparição do apresentador e da sua mulher no Faustão é uma obra do acaso? Não, não é. O poder da Globo é incomensurável, pois o Jornal Nacional é visto por mais de 80 milhões de pessoas no país. E é claro que isso pesa quando a TV opta sorrateiramente por uma candidatura. 

 

Consertar o Brasil não é consertar carro velho na televisão. Portanto, me espanta quando vejo o FHC virar macaco de auditório de um animador que surge do nada para tentar moralizar o país e colocar a sua economia nos trilhos. O povo não deve mais ser induzido pela mídia a acreditar em falsos profetas. Deve avaliar melhor quando for escolher o seu candidato. Sabemos, todos, que ainda não existe o candidato ideal para este ano, aquele líder com um perfil honesto e sério que aglutine as massas. Mas, por favor, não vamos nos deixar iludir pelo messias do apocalipse que oferece novamente o reino do céu ao trabalhador ou por um animador de auditório que conserta carros velhos na televisão como se isso fosse uma proposta social para salvar o Brasil. 

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