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Filhos de ninguém

Lisboa - É uma vergonha  a reação  do mundo que se afirma civilizado,com todas suas instituições denominadas dos direitos humanos, diante do genocídio dos Rohingyas.Até o Papa Francisco entrou mudo e saiu calado sobre a tragédia dessa  perseguida minoria muçulmana durante sua visita  a Myanmar,antiga Birmânia.Sequer se atreveu a pronunciar a palavra Rohingya,proibida no país, o que só fez  quando chegou à Dacca,capital de Bangladesh.Não há sinais de socorro por parte da comunidade internacional e no Conselho de Segurança da ONU a China e a  Rússia vetam qualquer resolução condenatória.

Na seqüência do que declarou no dia 27 de agosto passado,na Praça de São Pedro,referindo-se  ao problema “ como tristes notícias sobre a perseguição aos nossos irmãos e irmãs Rohingya”,esperava-se  mais do Papa Francisco,mas  não aconteceu.Prevaleceu a diplomacia do Vaticano,sob a discutível alegação  de que a menção à palavra Rohingyia poderia gerar ondas de ataques contra a minoria cristã de Mianmar.  Ocorre que ,algumas vezes,excessos de  cautela ,que não representam necessariamente diplomacia,não contribuem  para resolver e sim agravar determinadas situações .

Para decepção  de muitos e da sofrida população  Rohingya,quando discursou na capital Naypydaw,frente aos generais birmanêses, Francisco limitou-se a apelar à reconciliação e ao” respeito por todos os grupos étnicos e identidades.”Ou seja,ficou nas generalidades, saindo de Myanmar com sua imagem diminuída perante o olhar dos que depositavam a  esperança de que  sua visita  contribuísse para  minimizar o problema.

Se até o Papa evitou abordar a questão no local mais apropriado para fazê-lo,é no mínimo ,descabido  apontar o dedo a  Aung San Suu Kyi pelo  silêncio diante das atrocidades cometidas contra os Rohingyas.Prêmio Novel da Paz em 1991,que desde 2015,depois de 15 anos em prisão domiciliar, acumula  os cargos de Ministra dos Negócios Estrangeiros e de Conselheira de Estado, tornou-se uma Primeira Ministra virtual,sem nenhum poder.Acusá-la e exigir que lidere, na linha de frente, a luta em favor dos Rohingya,pode condená-la a ficar refém dos militares e a perder apoio da população que não aceita essa minoria muçulmana de volta.

Com 72 anos, Suu Kyi está entre cruz e a espada,num país dominado pelos militares e uma população que oscila  entre a indiferença e o ódio aos Rohingyas.Se confrontar os militares,corre o risco de comprometer a incipiente democracia birmanesa,provocando novo golpe  da Junta militar,que nunca foi embora.A Constituição de 2008 confere às Forças Armadas direito de veto a qualquer iniciativa parlamentar e o controle dos ministérios da Defesa, do Interior e das Fronteiras.Calada,atrai a ira dos defensores dos Rohingyas.

Pressionada, já disse  não ser  Margaret Thatcher ou a Madre Teresa de Calcutá.No entanto,em setembro passado prometeu que qualquer pessoa,independentemente da função ou crença religiosa,será punida se considerada culpada por violação aos direitos humanos.Foi o mais longe que conseguiu ir,porque como todos sabem,ela não tem nenhum ascendência sobre a forte e enraizada máquina militar da Birmânia.É apenas uma imagem emblemática,que aspira, sonha e luta do modo possível na Birmânia por dias melhores.

Apesar de a Birmânia e Bangladesh terem anunciado a assinatura de  acordo para permitir o regresso à casa dos mais de 600 mil muçulmanos Rohingyas que cruzaram a fronteira para fugir da onda de violência causada pela intervenção do Exército birmanês no estado de Rakhine,ninguém conhece detalhes dos termos,datas ou procedimentos para o retorno desses   refugiados.Como o anúncio foi feito pouco antes da chegada do Papa Francisco a Myanmar,é possível que seja conversa para boi dormir dos militares birmanêses .

A minoria muçulmana Rohingya vive há séculos na zona norte ,no pobre  estado birmanês de Rakhine,na fronteira com Bangladesh.Há registros da presença muçulmana na região   desde o século XCII.Considerados imigrantes do Bangladesh,são tratados como cidadãos de quinta categoria e não fazem parte da gigantesca lista de 135 minorias étnicas oficiais da Birmânia.Em 1982,o governo birmanês lhes negou a cidadania, a não ser que se registrassem como bengalis,e restringiu seus direitos à saúde e à educação..

Sequer são tratados pelo nome de Rohingyas,num país onde os budistas dominam o cenário.Contudo, o  ódio entre Rohingyas e o resto da Birmânia parece ser mais de natureza nacionalista do que religioso,pois a maioria  budista ,contrariando sua própria filosofia de aceitação das diferenças, deseja que eles desapareçam do mapa.Na Birmânia são imigrantes do Bangladesh,onde o governo montou um plano para deportá-los para uma pequena ilha no golfo de Bengala, a 60 quilômetros da costa,que fica coberta pelas águas  na época das chuvas e não possui uma única estrada

Em Bangladesh vive  atualmente,em doze campos de refugiados, cerca de um milhão de Rohingyas, a maioria crianças,nas piores condições  humanas e espremidos como sardinhas em lata.Mulheres e meninas são violadas,homens decapitados,outros têm braços e mãos amputados.O filme é de completo terror, um dos maiores crimes contra a humanidade. Ninguém os aceita,como a Índia.E nenhum país muçulmano,como a Indonésia ou a Malásia, manifestou a intenção de acolhê-los.São os filhos de ninguém.

Há excesso de diplomacia e pouca coragem no mundo dito civilizado para estancar essa limpeza étnica em curso.E não falta quem que receba cordialmente os militares responsáveis pelo massacre.Em abril,o general Chefe das Forças Armadas da Birmânia,Min Aung Hlasing,foi recebido em Berlim e Viena. E há quem se aproveite da situação para lucrar.Israel,por exemplo, vendeu  à Birmânia as lanchas Super-Dvora MK III,as mais sofisticadas do mundo,para patrulhar seu território.Ou seja, caçar os Rohingyas.

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