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Minha avó Izarele era uma espécie de maga da mistura de ervas. Mestra dos temperos apurados e das receitas improvisadas, daquelas que fazia qualquer resto de refeição transformar-se num novo e refinado prato, dentre os seus muitos dotes culinários estava o de preparar chás deliciosíssimos, valendo-se das plantinhas que cultivava no nosso pequeno quintal e das outras que sempre lhe eram presenteadas por vizinhas, comadres e amigas. Naquela época ainda não existiam os sachês práticos de hoje em dia, e cada chá era feito da infusão das próprias folhas na água fervente, arrancadas na hora, lavadas uma a uma, cuidadosamente, e finalmente depositadas no papeiro fumegante. Vovó fazia disso um ritual que encantava os meus olhos de menino e chamava a minha atenção para a delicadeza daqueles gestos cadenciados e serenos. 

O chá é uma bebida tradicional no Oriente, onde é utilizado inclusive em muitas cerimônias religiosas, e não somente trata o corpo, como também acalma a alma. Nunca se bebe o chá às carreiras, como quem toma um suco gelado para espantar o calor, mas com tranquilidade, quase cerimoniosamente. Era assim na minha infância. Na grande mesa de jantar da nossa casa, vovó servia a bebida quentinha que enternecia os encontros e fazia a conversa correr solta e sem pressa; afinal, o chá é para ser consumido devagar, entre risadas estridentes e lembranças boas, na celebração fraterna dos afetos. Abria-se um pacote de bolachas fresquinhas da padaria do Zé Pinheiro, que Tia Nil levava toda tarde, e a conversa não acabava mais, Dolores levando e trazendo o bule do fogão enquanto houvesse hortelã-miúda, cidreira, boldo e casca de laranja para esticar o assunto. E aquele aroma gostoso saía da cozinha, invadia a sala e passeava por toda a casa, como se fosse o perfume da verdadeira amizade.

Diz-se que quem se senta para tomar um chá vai lavando toxinas, desarmando-se, ficando harmonizado com o universo e consigo mesmo. Uma gota de limão apura o sabor e a fumaça leva para bem longe problemas, tristezas e preocupações. Talvez não fosse muito o que minha avó tinha para oferecer aos que se sentavam ao redor da sua mesa. Mas ela o fazia com tanto carinho que o encanto da sua ternura transformava aquilo numa verdadeira medicina da alma, todo o afeto do mundo contido numa xícara de chá. E se isso causava bem às pessoas, era o que valia para ela, na confirmação de que a felicidade mora mesmo nas coisas mais simples, naquilo que está ao alcance das nossas mãos e muitas vezes passa despercebido pelas nossas retinas fatigadas.


Diógenes Tenório Júnior é advogado e membro da Academia Alagoana de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas.

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