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Diálogos construtivos

Uma das maiores dádivas que nos legaram os gregos antigos foi o diálogo, afirmou o consagrado escritor argentino Jorge Luis Borges. Essa conclusão nasceu de uma benéfica avaliação das conversações mantidas durante os longos encontros com o ensaísta e jornalista Osvaldo Ferrari, depois transformadas em vitoriosa obra literária.

Referidos diálogos, realizados na biblioteca da casa de Borges, foram retransmitidos pelo sistema de radiodifusão e publicados na imprensa argentina, com ampla repercussão e aplausos. Os temas dos encontros eram propostos por Ferrari, versavam fundamentalmente sobre literaturas e podiam ser ampliados para outras áreas de conhecimentos.

Ambos os protagonistas logo perceberam que Borges parecia construir um verdadeiro ensaio, pelas opiniões expostas, citações e abordagens, um rascunho de um grande e futuro texto. Ele próprio afirmou que o diálogo lhe parecia uma forma de escrever em voz alta. Dialogar seria uma forma indireta de continuar a escrever.

Mesmo dominado pela cegueira, Borges viveu uma velhice produtiva, inquieta e realizadora. Possuía uma memória fabulosa, mesmo aos 86 anos de idade, apreciava viajar, fazer palestras, conhecer o mundo e sentir a alma do povo. A aproximação e a troca de ideias com os mais jovens, renovava-o e o fazia feliz.

Tinha o poder de encantar e empolgava a todos os seus ouvintes pela sua vasta cultura. Brilhante ao falar, fazia da literatura um ponto de partida para os rasgos de seu privilegiado espírito. As palavras revelavam seu universo pessoal, abordando qualquer tema, com lucidez, riqueza de informações e concisão verbal. Sua voz, diziam seus interlocutores, tinha a tonalidade de sua inteligência.

Como Einstein, como Spinoza, não acreditava na existência de um ser superior. Admitia, no entanto, que no indivíduo havia algo interior que procura o bem. 

Admirava o sistema que julga – devido ao predomínio de determinados atributos praticados na vida, a alma decide se prefere sua prolongação no céu ou no inferno. Esse último, o inferno, não seria um recinto punitivo, mas um espaço destinado àqueles que viveram da desconfiança, do medo ou da perfídia. 

Dizia que uma das funções do escritor, artista ou intelectual seria a de colecionar as frases memoráveis, ocasionais ou engenhosas. Seria um grande coordenador das frases dos outros e dos mestres. O importante seria ser um colecionador e não o criador da frase. Uma memória individual do coletivo.


Paschoal Savastano é advogado.

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