Secas repetitivas

Aos setenta e cinco anos de idade, e cerca de sessenta de convivência com secas, repetitivas, surpreendeu-me, assim como aos cientistas, a magnitude dessa que se iniciou em 2012 e continua assolando expressiva parte do semiárido nordestino, gerando sofrimento e prejuízos de grande monta. 

Há uma faixa do Nordeste diferente no contexto semiárido tendo, apenas, similaridade climatológica com outra existente na Austrália. Se inicia no norte do litoral da BA, finda no RN, e é denominada Litoral do Nordeste pelos órgãos sudestinos que concentram os centros de excelência da previsão do tempo, mas engloba toda Alagoas.

As previsões de seca extrema para 2017 não se concretizaram por aqui – mas perdura no resto do semiárido. O Estado como um todo teve precipitações elevadas, ora acima, ora um pouco abaixo da média histórica. Todos os reservatórios estão cheios, rios se tornaram caudalosos com os vi outrora, inundações ocorreram em zonas estuarinas com prejuízos de monta, mas, por estarem totalmente secos os açudes e barragens do semiárido, retiveram parte das águas de chuvas, reduzindo o caudal dos principais rios. 

Centenas de poços foram perfurados no semiárido, quase sempre encontrando águas salobras ou salinas – pois assim o são em toda aquela região, com raras exceções – acumuladas em fendas existentes no manto rochoso e espesso, o cristalino, sobre o qual há uma camada de solo raso, rico, agricultável, mas se tornará estéril, ao longo do tempo, se irrigado com água salina. Mesmo salobra serviu para salvar parte do rebanho, e foi consumida pela população que diz ser ‘grossa, mas geladinha dá para beber’. Em decorrência disso aumentam os índices de pressão alta e de AVCs em toda a região. A economia regional foi abalada, muito gado morreu, assim como palmas e capins.

Cabe ao governo, agora, investir em infraestrutura permanente – porque o sol bebe cerca de dois centímetros por dia da lâmina de água a ele exposta em açudes e barragens – acelerando a implantação do Canal do Sertão, cujos recursos anuais alocados foram reduzidos, postergando uma obra iniciada há vinte anos que poderia ter sido executada em cinco se houvesse recursos e vontade para isso.

Investir em tecnologia para gerar desenvolvimento, esconder a água e resgatar o equilíbrio ambiental com o Sistema Base Zero – barramentos da água executados com pedras soltas – que tanto defendi sem sucesso, continuar a implantação de dessalinizadores e cisternas, são algumas opções.

Ora o sertanejo diz a terra estar um céu, mas a seca voltará a assolar a nossa região.


Marcos Carnaúba é engenheiro civil e consultor.

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