Reservas: por enquanto, melhor mantê-las elevadas

O cenário internacional anda por demais conturbado para que o Brasil possa se dar ao luxo de  abrir mão de manter um nível substancialmente elevado de reservas cambiais, a título de seguro contra crises originadas no exterior.

 

Hoje, além das incertezas habituais, decorrentes das  flutuações de mercado, temos outras tantas, de natureza política, vindas de todos os continentes . Ninguém sabe, em particular, no que resultará o comportamento desconcertante do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Não apenas decidiram os EUA sair do Acordo Trans-Pacífico (Trans-Pacific Partnership–TPP) – idealizado por eles próprios na administração Obama, como estão a ponto de desfazer o NAFTA, acordo de livre-comércio que mantém com os vizinhos México e Canadá. Sob Trump, o multilateralismo se desmancha. A OMC já advertiu que o fim do NAFTA pode levar ao fim da própria Organização Mundial do Comércio.

É certo que anter as reservas cambiais no nível em que se encontram – na casa dos 380 bilhões de dólares - tem um custo elevado para o País.

De fato, só nos primeiros seis meses de 2017, a diferença entre o custo de captação e a rentabilidade das reservas, proporcionou ao Banco Central um prejuízo de R$19 bilhões.

A boa notícia nesse contexto é que o prejuízo líquido caiu para R$ 15,7 bilhões, depois de contabilizados os R$ 3,3 bilhões que o BC ganhou no período com as operações de swaps cambiais.

O preço dos swaps cambiais varia com a relação entre o real e o dólar. Nos períodos de depreciação do real, os swaps sobem de preço, impondo prejuízo ao Banco Central. Quando ocorre o contrário, como nos últimos tempos, o swap dá lucro.

Mas a questão não é tão simples assim. Quando o dólar sobe em relação ao real, o Banco Central sofre prejuízo, como já dissemos. Só que esse prejuízo será compensado pelo aumento do valor em reais das reservas cambiais, o que faz cair a dívida líquida do setor público.

Com as reservas beirando os 400 bilhões de dólares é natural (principalmente quando se tem eleições marcadas para daqui a menos de um ano!) que comecem a surgir discussões sobre se não se poderia utilizá-las, ainda que em parte, uma pequena parte, para financiar um fundo de obras em infraestrutura.

Os que se mostram excitados com essa perspectiva propõem a criação de um fundo de investimentos alimentado com o dinheiro proveniente das reservas e que seria destinado exclusivamente para investimentos. Nada para o custeio.

Quando confrontado com propostas como essas, o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, em recente visita ao Senado, as descartou. Segundo ele, não é o momento de se mexer nas reservas: “Compramos um seguro, estamos no meio do sinistro. Não é hora de nos desfazermos desfazer do seguro".

Golfajn lembrou ainda que as reservas foram constituídas com endividamento do País e que, portanto, quando venha a ser tomada uma decisão, seus recursos deverão ser destinados exclusivamente a abater a dívida brasileira. "No médio e longo prazo sim podemos discutir o tamanho e o custo das reservas", afirmou.

Segundo Goldfajn, embora a economia brasileira tenha voltado a crescer, as reservas têm se mantido estáveis. O que se fez até agora foi reduzir os swaps cambiais.

Pedro Luiz Rodrigues é jornalista, com atuação nos principais veículos de comunicação do Brasil, e diplomata.

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