AMARELO É O NOVO VERMELHO

Quem viveu politicamente as décadas de 1960e 1970 do século passado há de se lembrar da “ameaça vermelha” ou do “perigo vermelho”, assim denominado pelos seus inimigos, o desejo da ex-União Soviética de liderar o mundo pela via do comunismo.

Pois bem, dias atrás pareceu assistimos à ressureição desse desejo. Agora sob a cor amarela representada pela China e seu peculiar socialismo. Ninguém menos do que o próprio líder chinês, Xi Zenping, proclamou para todo o mundo durante o 19º. Congresso do Partido Comunista Chinês o desejo de protagonizar uma liderança global.

Desnecessário salientar a importância geopolítica e econômica da China, autoproclamada como “o reino do meio” ou “o centro do mundo” – Zhongguo. Ainda na esteira da abertura para o exterior impulsionada pela noção de que havia outro mundo com muito para ensinar, do qual a China teria muito a aprender, vieram novas etapas diplomáticas. E tanto aprendeu que agora quer ensinar.

Com essa visão em marcha, tornou-se ainda mais viável para os Estados Unidos a aproximação com o “gigante amarelo”, cujo isolamento vinha se tornando uma crescente ameaça à paz mundial na visão de vários analistas.

Teve início então um esforço diplomático, de ambos os lados, voltado para aparar diferenças e aplainar o caminho para a continuidade de  cooperações na cena internacional. Uma gigantesca tarefa iniciada na década de 1970 do século passado.

O namoro amarelo com o Ocidente, particularmente com os Estados Unidos, está declarado, por exemplo, na transcrição de um dos diálogos entre Mao e Nixon, durante o qual o líder comunista expressava sua simpatia por líderes e governos ‘de direita’, completando com a estonteante afirmação de que “teria votado” em Nixon.

Passados 20 ou 30 anos da abertura na China, hoje ostentando a posição de segunda economia mundial e poderoso investidor global, a China quer nada menos do que liderar o mundo. Embora, para isso não abre mão de seu modelo político e econômico e suas práticas de abertura econômica e fechamento político.

Há, no entanto, um problema a esta pretensão amarela. O lugar de líder global está atualmente ocupado por outro gigante econômico e político: os Estados Unidos da América.

Estrategicamente, no entanto, parece que o momento político pode favorecer tal pretensão chinesa. Afinal, a atual liderança política norte-americana não é das mais populares ou convincente. Então, como o poder não admite vácuo, há sempre alguém disposto a ocupar o lugar vago, mesmo que momentaneamente. Xi Zenping, é este líder.

Chame-se a atenção, no entanto, para a abordagem da natureza das relações entre as duas nações - tendente à cooperação, embora concorrencial, e, não necessariamente, alguma coisa que possa ser visto como um duelo de inimigos.

Tal situação, porém, não impediu a imediata reação do Tio Sam, na voz de dois de seus ex-presidentes: George W. Bush e Barak Obama. Mesmo sem citar a China em seus discursos mandaram recado claro ao mundo e aos chineses ao defenderem a democracia como regime político, em obvia contraposição à nova era comunista.

Os desdobramentos deste embate que apenas começou serão vistos e acompanhados em todos os cantos do planeta. 

 

João Paulo Peixoto é professor e pesquisador do Centro de Estudos Avançados de Governo e Administração Pública – CEAG, da Universidade de Brasília (UnB), e cientista político.

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