Roberto Campos, profeta

Há homens que vem e que ficam, e há homens que vem e, quando a eternidade os recolhe, só nos deixam a má memória.

O embaixador Roberto Campos, de saudosa lembrança, foi um brasileiro lúcido e patriota, embora a esquerda festiva o alcunhasse “Bob Fields”. Foi autor de pensada doutrina econômica, e prestou ao país serviços inestimáveis. Com várias obras publicadas sobre o sempre atual tema econômico, vale resgatar algumas linhas que deixou à posteridade em sua presença semanal no também muito saudoso Jornal do Brasil. Em colaboração assinada e publicada a 29 de agosto de 1993, com o título “Como salvar a década...”, assim se manifestou, em sua primeira linha: “A receita para perdermos esta década é fácil: basta adiarmos a revisão da “Constituição besteirol” e eleger o Lula presidente ...”

Não escorregou nem tergiversou mestre Roberto Campos, profetizou. A muito ruidosa “Constituição cidadã”, de fato, quase estrangulou o país com suas concessões generosas, naquela lua de mel democrática, falsamente anunciada como documento de resgate de direitos impostergáveis. Sem interesse em polemizar o conteúdo da Carta, cita-se (é o bastante) o dispositivo que gravou quase de morte nossa previdência social, que foi o reconhecimento de outorga de pensão à viúva(o) ou dependente do servidor público em valor correspondente ao ganho percebido pelo contribuinte quando em vida, vigente na ocasião de sua falta. O deferimento deste ganho constitui sangria sucessivamente maior e inestancável ao equilíbrio das contas previdenciárias, havendo criado uma casta de singulares felizardos com a proteção inexpugnável e secular do direito adquirido.

Quanto ao segundo quesito, o ministro Roberto Campos também foi profético. Nada podia ter acontecido de pior ao crescimento e desenvolvimento da nação do que a ação nociva de Lula e sua “troupe” na administração pública, durante 13 anos. Esta matilha, sem noção de, sequer, fundamentos de administração, praticou novas modalidades de corrupção, e as introduziu em órgãos até então infensos a ela. A corrupção não é mais endêmica, mas epidêmica e contagiosa, e implantou-se como rotina no governo de Lula a Dilma, deixando ao sucessor vivas lições de como iniciar-se no esporte delituoso. Não imaginava nosso personagem fatídico que a perspectiva que receava realizou-se além dela. As facilitações do período Lula (inclui Dilma) com as benesses sacadas contra supostas possibilidades do país, em franquear nosso tesouro a terceiros (outras nações) e a desastrada política econômica que deliberava a esmo, veio encontrar-se e confirmar o pesadelo. Se nos livramos de Lula, não nos livramos, ainda, do lulismo. Nosso povo está conquistado e envenenado por uma prática de liberalismo excessivo, e, aos sucessores, cabe realinhar o fio da melhor política de administração, que não é a do paternalismo exacerbado, pois a extrema pobreza exige atenções imediatas. Porém, as dádivas regozijantes do governo federal estabeleceram não apenas muralhas para mantê-las, mas, o que é pior, permitiu que estas políticas se cristalizassem como cultura de obrigação do poder público.

Este é um entrave complicador para candidatos e governos.

 

José Maria Couto Moreira é advogado.

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