Miller foi um mau professor para os irmãos Batista

Barra de São Miguel, AL - Confesso que ainda estou impressionado com a inteligência e a sagacidade dos advogados do procurador Marcello Miller. Estou, inclusive, invejoso da competência desses defensores pela forma como orientaram seu cliente a dizer na Polícia Federal que o envolvimento dele com os irmãos Batista – Joesley e Wesley – foi somente professoral, ensinar gramática. Como os goianos falam errado e escrevem mais errado ainda, Miller serviu de revisor do texto das delações premiadas que os irmãos entregaram a procuradoria-geral da República na primeira fase dos depoimentos. Entendeu bem? Vou repetir: Miller, braço direito de Rodrigo Janot na procuradoria, não cometeu nenhum crime no exercício do cargo. Isso mesmo! Apenas atuou como mestre para corrigir os erros gramaticais dos dois alunos.

Ao ler essa versão fantasiosa me senti o sujeito mais idiota do mundo por não compreender rapidamente que os encontros do procurador com a turma dos Batista não passavam de reuniões educacionais. Posso imaginar o Miller diante de uma lousa no escritório dos Batista, com uma régua na mão, corrigindo o vernáculo dos irmãos para evitar um vexame durante os interrogatórios deles na própria procuradoria. Mas as aulas, pelo visto, não foram bem assimiladas pelos Batista a julgar pelo diálogo registrado entre Joesley e Ricardo Saud, seu assessor. Os dedicados discípulos do procurador não absorveram bem as aulas e trucidaram impiedosamente a língua pátria. Miller, pelo que se viu, não foi um professor competente.

Se não fosse verdade, certamente seria cômico ouvir a versão de Miller, o procurador que esteve envolvido diretamente na delação premiada dos Batista. E que, ainda no cargo, prestou consultoria milionária para os empresários dentro de um escritório de advocacia para onde se mudou depois de se desligar do emprego público. Veja os senhores de quem Rodrigo Janot se fazia acompanhar. Tinha ao seu lado um profissional capaz de inventar tamanha sandice na falta de um argumento mais plausível para justificar os milhões de reais que recebeu para ensinar português aos empresários goianos.

Ao criar essa história de “professor”, Miller chama a todos nós de babacas. E a Polícia Federal de incompetente se engolir essa versão estapafúrdia de que nas suas folgas aprimorava o texto da delação premiada dos Batista para que os meninos se afinassem com a gramática e escrevessem a delação corretamente. O procurador, sobre quem pesa a denúncia de favorecimento aos empresários, ainda tem tempo de corrigir esse depoimento fantasioso e ignóbil, antes que os Batista decidam contar o que sabem sobre ele. Se resolverem abrir o bico, como fazem sempre, certamente o professor Miller ficará em maus lençóis, como já assistimos com outros envolvidos nessa prática de esconder o jogo para protelar uma ação mais rápida das investigações.

É claro que ninguém vai engolir esse conto da carochinha do Miller. A Polícia Federal e seus colegas procuradores têm meios para provar o envolvimento dele com os empresários. Um deles é abrir seu sigilo fiscal e bancário. Lá, certamente, vão encontrar a dinheirama que ele recebeu do escritório para ajudar na delação dos Batista, até então contemplados com a impunidade total dos seus crimes. Seus colegas têm a obrigação de ir fundo na apuração do caso Miller, pois, caso contrário, estariam defendendo o espírito de corpo, muito ruim para uma categoria que se propõe a botar os corruptos na cadeia.

A gestão de Rodrigo Janot deixou dúvidas quanto a imparcialidade das investigações sobre os irmãos e levou a crise da Lava Jato para dentro do seu gabinete, quando viu Miller, seu braço direito, envolvido diretamente com suspeitos de lavagem de dinheiro e corrupção. Cabe agora à nova procuradora-geral Raquel Dodge reordenar a casa para evitar o que está acontecendo com a exposição de membros do órgão interrogados nas CPIs do Congresso Nacional. Se assim o fizer, Dodge estaria dando um freio na vaidade dos seus colegas e estancando o envolvimento de alguns deles com políticos e empresários bandidos.  

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