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Ceder pode ser a mais nobre das atitudes

Lisboa - Está faltando sabedoria na Espanha. A começar por parte da imprensa. Quem vem acompanhando o desenrolar dos conflitos entre a Catalunha e o governo da Madri na televisão espanhola não pode deixar de compará-la à cobertura da Fox News sobre Trump. Diferente não tem se comportado o resto da mídia.A isenção está ausente.Lendo ,ouvindo ou assistindo, tudo parece um grande comício no melhor estilo dos políticos brasileiros em defesa dos seus interesses pessoais.Não se percebe preocupação com o pluralismo.São ataques e mais ataques ao referendo catalão, sem abertura ao diálogo,sobretudo por parte da direita,que parece saudosa da ditadura franquista.

No decorrer da semana, o fundador do partido português Livre, Rui Tavares, foi uma das opiniões sensatas sobre o atual braço de ferro entre o Presidente da Catalunha,Carles Puigdemont e o primeiro ministro espanhol Mariano Rajoy. Num artigo no jornal Público, ele lembrou ensinamentos de Sêneca, nascido em Córdoba há mais de dois mil anos, para dizer que a Península Ibérica já foi sábia. Modelo de pensador estóico, Sêneca defendeu que sábio é aquele que, na verdade, só é vencido pela sua facilidade em sentir-se insultado e a sua vontade de humilhar. Para ele, ceder a essas fraquezas representa a  derrota. Já resistir ao orgulho,condição para a convivência, é a verdadeira vitória.

 Mariano Rajoy cedeu a essas e outras fraquezas e não consegue resistir aos seus brios, com sua rarefeita inteligência emocional e nenhuma sensibilidade política. Errou em tudo, desde o início. Há mais de um mês escrevi aqui não ser possível abafar desejos e sonhos dos catalães por decreto ou violência e que, sem entendimento, nada poderia acabar bem. Parece que ele é o único a não enxergar isso. Não se trata de defender os independentistas e atacar seus contrários. Uns e outros são responsáveis pelo atual estágio da situação.Não houve bom senso de parte a parte,mas  vale lembrar que o nacionalismo separatista catalão sempre foi mais civilizado que outros similares,como a ETA e o IRA,enquanto Rajoy apelou à violência para contê-lo.

Chama a atenção o fato de os partidários do governo central de Madri terem cerrado fileiras contra os independentistas apenas com argumentos jurídicos e constitucionais. Eles são importantes para ajudar no equacionamento do problema, mas insuficientes para isso e não se chegará a bom porto apostando apenas no direito. Raros movimentos de independência no mundo foram pacíficos, considerados legais ou constitucionais,a começar pelo Grito do Ipiranga do Dom Pedro I.Portanto, a sensatez aconselha buscar argumentos substantivos de outra natureza e colocá-los sobre a mesa para negociação.As leis sempre podem ser mudadas para atender  anseios de um povo,sem que isso represente humilhação a quem cede.Ceder , pode ser a mais nobre das  atitudes.

Rajoy fixou prazo de cinco dias para Puigdemont esclarecer que tipo de independência decretou, ou que volte atrás. O primeiro-ministro da Espanha precisa que o Presidente da Catalunha defina a declaração como ato unilateral para justificar a aplicação do artigo 155 da Constituição espanhola, que lhe permitiria revogar a autonomia da Catalunha. É evidente que Puigdemont não o fará.Ao contrário disso, defendeu o caminho do diálogo, o que é possível ocorrer se houver concessões dos dois lados.

Caso haja flexibilidade entre as forças adversárias, seria possível pactuar a realização de um referendo, ou novas eleições só na Catalunha ou em toda a Espanha. Traçar um roteiro para instalar uma Espanha federal, uma república catalã independente ou unida confederalmente a Espanha. Há saídas para o problema.Basta sabedoria .

Quando suspendeu os efeitos da independência que acabara de anunciar no Parlamento, Puigdemont abriu as portas ao entendimento, o que pode ser uma oportunidade de ouro para Mariano Rajoy reescrever sua biografia. E o Rei Felipe VI bem que poderia mudar de atitude e tentar ajudar, o que talvez tivesse feito seu pai Juan Carlos, que pouco antes da promulgação da Constituição espanhola de 1978, que reconheceria a autonomia da Catalunha, foi até lá e se dirigiu ao seu povo falando catalão. Ao contrário disso, num discurso de 654 palavras após o referendo, seu filho não mencionou uma só vez a palavra diálogo nem se referiu aos catalães.

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