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AINDA SOMOS JOVENS...

Cultivo inúmeros hobbies. Dentre eles, um mensageiro de alegria é haver guardado documentos que, atualmente lidos, facilitam relembrar minhas histórias de vida. São bilhetes, diplomas, cartas, fotografias, súmulas de participação em partidas de futebol, enfim, páginas de uma caminhada não tão recente.
​Mexendo em certa gaveta, encontrei, em uma caixinha de papelão, um bilhete meu para meus pais, onde dizia ser, meu maior desejo, atingir idade suficiente para conseguir, junto ao Juizado de Menores, autorização de assistir, nos cinemas, filmes proibidos a menores de quatorze anos.
​Meu sonho era tornar-me um adolescente... lembro de, àquela época, conviver com meu avô materno, um grande companheiro... contava-me histórias, levava para passear no Parque e até para cavalgadas, na quilha de sua sela... mas, sua imagem, era de um Senhor: Calças frouxas, presas por cinturão, camisas de brim, facilmente amarrotáveis, relógio de algibeira, sandálias sertanejas presas aos pés e uma conversa regrada, além de totalmente distante de exercícios físicos, exceto cavalgar.
​Os tempos passaram, modificando as verdades de então. Dias atrás, conversando com um colega, docente da Universidade Federal de Alagoas, que, diga-se de passagem, foi meu professor naquela Instituição e ainda ali atua com a mesma desenvoltura de então, perguntei-lhe quando se aposentaria, e ele respondeu: “nem penso nisso! Quando completar setenta anos, acabará minha adolescência e largarei esta vida louca para fazer como meus pais sempre recomendaram, ou seja, nunca parar de trabalhar, talvez realizando um novo curso superior, quem sabe, Direito... mas, só quando terminar a adolescência, aos setenta anos”.
​Pura verdade. Tudo mudou. Os avós de hoje usam calças jeans, dominam whatsapp, facebook e instagram, frequentam academias de ginastica, correm na praia, jogam futebol com amigos, participam de competições esportivas e alguns, até, tatuam os nomes dos netos nas costas, comparecendo a restaurantes e, em várias situações, nem de longe invejando a aparência dos corpos jovens com quem convivem. O mais importante, contudo, é sempre buscarem posições favoráveis em relação ao vento que sopra, sabendo ser a felicidade como uma pluma, levada pelo ar, e voando tão leve, embora somente conseguindo permanecer a flutuar se bafejada, de forma constante e perene, pela brisa.
​A antropóloga brasileira, Mirian Goldenberg, recentemente escreveu: “hoje, as pessoas na idade dos sessenta/setenta anos estão estreando uma idade que não tem nome. Antes, seriam velhas, mas hoje já não o são... continuam com boa saúde física e mental e recordam a juventude sem nostalgias. Não são mais adolescentes, porém sexalescentes...”. Cada dia mais me convenço, “os velhos de hoje” serem verdadeiros rebeldes. Conseguindo quebrar conceitos prevalecidos por tanto tempo, deixam de lado a dor nos ossos e investem no sorriso, sem dúvida o verdadeiro alimento da alma. Se nós não dispomos mais de todo o tempo do mundo, levamos a vantagem de ainda sermos jovens.

Alberto Rostand Lanverly membro da Academia Alagoana de Letras.

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