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A derrota do processo contra Temer

Estive na Câmara dos Deputados anos atrás. Mas tenho a impressão de que o funcionamento do Parlamento brasileiro permanece igual. O que antes se anunciava ganhou cores mais nítidas: bancadas “da bala”, “evangélicos”, “do boi”. Essas bandeiras corporativas valem mais que as siglas partidárias, e o melhor exemplo disso deu-nos a deputada Tereza Cristina, líder do PSB na Câmara, que teve a cara de pau de orientar a bancada a votar contra Temer, e ela mesma votou a favor dele, seguindo seus pares (os ruralistas), e não seu (suposto) ideário político. É mole?!

De modo que temos agora dois problemas a enfrentar: o excesso de siglas que não têm nenhum conteúdo, e que só permanecem vivas por conta das regras eleitorais vigentes, e a organização no Estado dos interesses de camadas referenciadas em valores de outra ordem.

A farta distribuição de prebendas e sinecuras também é coisa velha. Veio-me logo à mente a pessoa que conheci ao adentrar, pela primeira vez, a Câmara dos Deputados: o velho Roberto Cardoso Alves, do “É dando que se recebe”. Ele se foi, mas sua orientação vigora em plena luz do dia.

Até o placar – ah, o placar!!! – veio na medida certa para parecer incerta a aprovação da reforma da Previdência. Nem demais, que demonstrasse a impossibilidade da reforma, nem de menos, a indicar uma barbada. O suficiente, diria eu, para dar farto material para os que, na imprensa falada, tanto se referem aos “bastidores” de Brasília. E para nova distribuição de favores, pois a luta agora é como evitar que o eleitor do ano que vem reconheça quem agora votou a favor da reforma. Previdência mexe com os nervos de todos.

E nem me venham dizer que o resultado da votação sobre Temer não reflete a realidade brasileira! Reflete, sim. No início da década de 80 do século passado, quando o assunto predominante era a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte, ficou famosa a frase dita por um dos próceres da política de então. Questionava-se que o povo não entendia bulhufas da tal Constituinte; o que queria era ter emprego, matar a fome, fazer a reforma agrária e acabar com o arrocho salarial. O tal medalhão – Tancredo de Almeida Neves – pontificou: “Meu caro, justamente por isso, uma nação não é composta apenas pelo povo”. Isso mesmo! O povo existe para escolher seus representantes, e estes vão negociar o que convém e quando convém. Ao povo recorrem apenas em época de eleição...

Se Temer tem apenas 5% de apoio popular, isso não precisa refletir-se em nenhuma iniciativa governamental nem servir para tornar mais robustas as provas contra ele, em suas parcerias com os Joesleys da vida. Para reformar algo, é preciso apenas e tão somente a vontade das elites, isto é, das lideranças dos que possuem dinheiro e em quantidade suficiente para si e para engordar os pixulecos com que se faz política neste país.

Trocando em miúdos: deixa o povão reclamar, pois quem manda mesmo é o mercado. E o mercado apenas manda: não responda pesquisas de quem quer que seja... Basta deixar lá o Meirelles e sua equipe.

 

Artigo publicado originalment no jornal O Tempo.

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