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Raimundo Carrero, pernambucano que é um dos meus autores prediletos, tem um texto, lindo, no qual menciona “o desafio dos galos, o cântico dos passarinhos, os ruídos que anunciam a manhã”. Era isso o que eu testemunhava toda vez que acordava, na minha infância em Murici, mas nunca soube dizê-lo com palavras tão belas e precisas. Eis o que me encanta nos poetas: o falar com a simplicidade dos que são verdadeiramente grandes, dos que já descobriram, pela própria experiência, que a vida está sempre disposta a nos surpreender e a nos encantar, desde que tenhamos disponibilidade para acolher cada momento como se ele fosse uma verdadeira dádiva dos céus. Aceitar e agradecer – eis o sentido da nossa caminhada.

Mas Raimundo não é poeta, diriam os chatos; é ficcionista, e dos melhores. Para mim, entretanto, não deixa de fazer poesia quem nos conduz ao mistério do encantamento e da entrega, quem nos convida à aventura extraordinária de ouvir a voz que vem de dentro de nós mesmos. É a isso que todo poeta se propõe, afinal: falando de si próprio, falar também de todas as pessoas, de tudo o que inspira e estimula a nossa caminhada sobre essa fugaz realidade a que chamamos de existência, marcados pelo signo da finitude e da transitoriedade. E buscar, no aconchego das palavras e no remanso dos sentimentos, imprimir melodia à passagem das horas, tentando eternizar o que é passageiro e fortalecer o que é frágil. Porque a poesia é justamente essa possibilidade que nos é dada de escancararmos o nosso coração e darmos em espetáculo ao mundo o turbilhão das nossas emoções mais sinceras. Pinto do Monteiro, repentista paraibano, dizia que “ser poeta é tirar de onde não tem e botar onde não cabe”; eis aí uma definição verdadeiramente arretada. 

Lembro-me do que escreveu Ramon Nunes Mello: “Há (sempre) um mar no fundo de cada sonho”. E daí surge a pergunta: o quanto cabe no leito generoso dos nossos maiores devaneios? Ou doutra banda: o que não cabe na esteira dos nossos desejos mais recônditos, daqueles que hibernam no silêncio da nossa alma e nunca se transmudam em voz e gesto? Os antigos gregos falavam em três tempos: Chronos, o tempo cronológico; Kairós, o ritmo da satisfação; e Aión, o tempo de Deus. Sob qual desses ritmos buscamos trafegar? Carregamos conosco o mistério das nossas próprias escolhas e a marca das nossas impressões mais íntimas. Nos desvãos da alma humana, nada é totalmente impossível de brotar. Somos travessia e chegada, amplitude e pequenez, luz solar e sombra noturna. Por isso eu canto com Djavan: “Nem se eu bebesse o mar/ encheria o que eu tenho de fundo”.

 

Diógenes Tenório Júnior é advogado e membro da Academia Alagoana de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas.

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