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O Brasil precisa de bombeiros, não de incendiários

Quando escrevo meus artigos, torço bastante para que (eu) seja entendido pelo leitor. Quando os envio ao jornal, nem sempre seguro do que escrevi, falo para mim mesmo: “Por que tanto sofrimento? O leitor saberá, com certeza, destrinchar o que escrevi nas entrelinhas”.

Infelizmente, porém, nem sempre acontece assim. Há leitores que me cobram mais clareza. Ou, com energia, um mínimo de coerência. Nunca tenho o que reclamar deles. Sinceramente. A culpa é somente minha. Fui eu quem não soube transmitir, corretamente, o que desejava. Afinal, ninguém me obrigou a tornar público o que penso sobre a política do meu país em tempos bicudos. Sou o único culpado daquilo que me incomoda mais do que ao verdadeiro destinatário destas linhas.

Quando afirmei, por exemplo, que o mais importante para nossa incipiente democracia é que os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário vivam em paz, quis dizer que é desejável que sejam harmônicos e independentes, além de obedientes a nossa Constituição Federal. Isso não significa que ela não possa jamais ser emendada. Pode, sim, mas pelo Poder que a promulgou. É essencial que a Constituição seja o nosso norte. Como afirmei e aqui novamente reitero, ela dará conta do recado.

É verdade que o país nunca passou, simultaneamente, por inúmeras crises graves e profundas. O momento, todavia, requer bombeiros, e não incendiários. Não foi a operação Lava Jato que tornou público esse quadro cruel. Amedrontador. O ambiente político já vinha se deteriorando desde o mensalão, no governo do ex-presidente Lula. E a ex-presidente Dilma Rousseff conseguiu piorar a política e a economia. O presidente Temer poderia tê-lo administrado se outros fossem os atores políticos de seu governo. Nomeou equipe econômica competente na certeza de que, com ela, resolveria todos os problemas. Esqueceu-se de que não se governa mantendo ao lado apenas amigos e correligionários.

O Ministério Público acha que só ele será capaz de salvar o país da corrupção. Um enorme equívoco. Ministros do Supremo Tribunal Federal botam lenha na fogueira e se desentendem entre eles. Esquecem-se de que têm missão política e, por isso, devem funcionar, em certas circunstâncias, como Poder moderador. Como já aconteceu.

Equivocadas foram, leitor, tanto a decisão monocrática do ministro Marco Aurélio Mello – que quis afastar o senador Renan Calheiros (atenção: o que está em jogo é a instituição, não o senador; este está com os dias contados…) não só da linha de substituição do presidente da República, mas, igualmente, da presidência do Senado – quanto a monocrática decisão do ministro Luiz Fux – que considera que “cumpriu seu dever de ofício” ao mandar anular a tramitação do projeto das dez medidas contra a corrupção, que nem sequer se tornara lei. Projeto, aliás, diga-se de passagem, que continha desvairados absurdos!

Penso que pior do que o fato tem sido sua versão. Um cidadão informado sabe que, neste cipoal de investigações, acusações, colaborações e condenações, há distinções que precisam ser feitas. Está certo o jornalista Ricardo Noblat: “Caixa 2 é crime ou infração eleitoral. Uma coisa ou outra merece ser castigada. Mas não é justo que se puna quem se valeu de caixa 2 só para se eleger como se punirá quem se enriqueceu à custa dele, ou quem retribuiu o caixa 2 com contratos públicos superfaturados ou não, ou quem recebeu propina”.

Só isso já daria conta de baixar a bola de muita gente.

Feliz Natal, leitor!

 

Artigo publicado originalmente no jornal O Tempo.

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