TRUMP Presidente, rápida análise

A vitória de Trump enriquece a tendência da minoria silenciosa de um dia rebelar-se, como parece ter acontecido agora nessa onda conservadora fundamentalista. São “blue collars” e outros deserdados pela globalização que se perceberam representados na retórica de um ator.
Trump não tem propostas, tem "slogans" de fácil impacto entre os desguarnecidos pela nova geografia da redistribuição da produção de bens e serviços no mundo, em busca da maior produtividade e do menor custo.
Os Estados Unidos sofreram mudanças importantes diante dessa dinâmica, como é o caso das perdas no cinturão formado pelos Estados ao redor dos Grandes Lagos, antigos produtores privilegiados de veículos e atividades derivadas, onde a sua época surgiram métodos de produção inovadores, para lembrar o “Fordismo” da produção em massa. Mas , por outro lado, o país como um todo ganhou força em atividades de pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias, como é o caso da produção do Vale do Silício que hoje domina o mundo da inovação, com a tecnologia.
Os deserdados permeiam outras áreas do país, com insuspeitadas frustrações atribuídas ao medo do desconhecido promovido pela globalização, do desemprego, da imigração estrangeira, etc. São os brancos evangélicos fundamentalistas, resistentes a qualquer modernização e à liberalidade moral do novo mundo de liberdades e dos Direitos Humanos das grande metrópoles e dos Estados mais afluentes. 
Perderam com Trump os liberais, quando acreditaram que as conquistas comportamentais de sua agenda seriam definitivas, em temas como a igualdade do homem e da mulher, a homossexualidade, o aborto liberado como opção, os casamentos entre pessoas, independente do sexo, etc. 
É a América dos conservadores de outras épocas, dos desprovidos, dos esquecidos, do atraso e do passado que ressurgiu com Trump. 
Cabem nesse quadro algumas perguntas sem resposta: teria sentido no atual estágio da economia da produção no Planeta que os chineses e coreanos deixassem de produzir os “iPads”, os “iPhones” físicos, para que essa indústria convencional voltasse a ser “made in America”? Os EUA produzem hoje pouco mais de 16 milhões de veículos e compram magníficos carros e caminhões oriundos da Ásia, da Europa e da América Latina, mais especialmente México, sob a proteção do quadro jurídico da NAFTA. Isso poderia ser alterado com rapidez e sucesso?
O que temo em Trump, nesse quadro, será qualquer iniciativa compensatória para essa massa de insatisfeitos que ele representou como um ator sem “script”. 
Nesse passo, como subproduto um novo protecionismo tópico e um paternalismo/populista, em política neo-Keynesiana, Trump poderia inaugurar nova era do Governo como investidor à outrance. 
Este seria movimento, talvez o mais sensível, a impactar o Brasil, já que seria bastante provável que onda inflacionária abatesse sobre aquele país, o que o “Federal Reserve” trataria de conter com uma alta de juros superior à que já se antevia. Juros entre 2% e 2,5% atrairiam capitais voláteis em busca de maior segurança, muitos deles aplicados no Brasil atual de instituições politicamente em crise e dúvidas sobre nossa solidez econômica.

II

A força da Democracia norte-americana está na persistência do modelo. Já houve presidentes de todos os matizes, alguns ignorantes, como Carter, ou agressivos, como Bush, filho, mas o sistema sobreviveu e se restaurou 
A tendência geral, se eu tivesse de fazer comparações, expressou-se da mesma forma no BREXIT e na direita francesa crescente. É uma força nacionalista, isolacionista, que nos dará dores de cabeça localizadas, espero, mas não a hecatombe. 
O pior quadro político/psicológico, se eu posso usar essa combinação, é o de Trump conseguir criar um "trumpismo" protecionista e xenófobo muito forte. Mas não creio nisso. 
Kissinger dizia em suas aulas em Harvard, nos idos de 1993, Kennedy Presidente, que os EUA sempre foram na história um país de controvérsias em que as instituições prevalecem naturalmente sobre as barricadas de oponentes e estabelecem o equilíbrio. Como Nação, existe a confiança de que dos dois lados das barricadas existem a opinião pública, uma imprensa livre, homens sérios e empresas cujos interesses se entrelaçam de ambos os lados. 
Haverá contrapesos, até mesmo num Congresso de maioria republicana, onde o velho Partido Republicano tratará de recuperar seus temas e suas teses, para provável aceitação por Trump. Majoritário no Congresso, o Partido Republicano saberá impor-se progressivamente sobre o Executivo.

III

Sobre a incógnita da Política Externa do futuro Governo Trump, suas frases de efeito durante a campanha ignoram a realidade internacional, especialmente as realidades localizadas, das quais os EUA não estão nem estiveram historicamente ausentes. 
Os EUA como potência internacional prevalente ainda é realidade, apesar da multipolarização no mundo. 
Trump será Presidente dos EUA inescapável de uma crise na OTAN (Tratado do Atlântico Norte), do qual têm sido o principal garante; Trump não poderá isolar-se e ignorar acontecimentos em uma Europa em crise; seu Governo não se desgarrará da crise da Síria, a despeito de sua empatia com Putin; seu “namoro” com o Presidente russo não passará das crises ucranianas, inclusive a da Criméia. 
Trump criaria um problema grave se decidisse rever o tratado com o Iran, pois a consequência menos desejável por todos os interesses envolvidos será que o Iran possa avançar em suas atividades nucleares e produzir a bomba. Reversamente, os países da área que se sentirem ameaçados pelo Iran- potência estarão autorizados a desenvolver seus próprios programas nucleares?
Na campanha, em seus discursos de efeito, o Presidente eleito afirmou que a Coréia do Norte “ é um problema da Coreia do Sul e do Japão”. Esqueceu a China ali pelas vizinhanças, ignorou sua fronteira no Pacífico... 
Quanto à China, país que está construindo sua própria grandeza, não interessa aos Estados Unidos cruzar os braços e deixar-se suplantar pela nova superpotência. Que percepção terão seus eleitores ao se sentirem ameaçados por uma China líder, ampliando seus laços diplomáticos e fundando a infraestrutura de transporte e comunicação em direção aos países antigos membros ou clientes da URSS, hoje independentes, em sua fronteira norte e oeste?
Definitivamente o suposto isolamento dos EUA de Trump não parece parte da história futura.

 

Flávio Miragaia Perri é embaixador do serviço diplomático brasileiro.

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